Grupo de Oração dos Oblatos Beneditinos Seculares do Mosteiro de São Bento - SP - Terço da Divina Misericórdia e reflexão sobre a Oração a partir do Catecismo da Igreja Católica (agosto 2010 a setembro 2012)


 
Os textos postados abaixo foram lidos a cada primeiro sábado do mês em nosso Grupo de Oração. A cada sábado foi entregue aos participantes um texto, e ele foi lido antes de rezarmos o Terço da Divina Misericórdia. O objetivo dos textos é que as pessoas pudessem ter o conhecimento de que a Oração Cristã está fortemente enraizada na Sagrada Escritura, desde o Antigo Testamento até a Oração de Jesus - o Pai Nosso. Após esse percurso, tomaremos mais adiante os textos dos grandes Padres, Doutores e Doutoras da Igreja, que souberam, por meio dos seus escritos, recolher a essência da oração cristã e nos ensinar a importância e o sentido da oração na vida de todo cristão. Com estes textos, as pessoas têm a oportunidade de formar um pequeno dossiê dos mais representativos textos cristãos sobre a Oração.




 [Do Catecismo da Igreja Católica – Sobre a Oração – Texto 01]
         “A oração é a elevação da alma a Deus ou o pedido a Deus dos bens convenientes. De onde falamos nós, ao rezar? Das alturas de nosso orgulho e vontade própria, ou das profundezas de um coração humilde e contrito? Quem se humilha será exaltado. A humildade é o fundamento da oração. Nem sabemos o que seja conveniente pedir. A humildade é a disposição para receber gratuitamente o dom da oração; o homem é um mendigo de Deus. A oração quer saibamos ou não é o encontro entre a sede de Deus e a nossa. Deus tem sede de que nós tenhamos sede dele.” [ 2559-60]
         “De onde vem a oração humana? Qualquer que seja a linguagem da oração é o homem todo que reza. Mas, para designar o lugar de onde brota a oração, as Escrituras falam às vezes da alma ou do espírito, geralmente do coração. É o coração que reza. Se ele está longe de Deus, a expressão da oração é vã. O coração é a casa em que estou, onde moro. Ele é nosso centro escondido, inatingível pela razão e por outra pessoa; só o Espírito de Deus pode sondá-lo e conhecê-lo. Ele é o lugar da decisão, no mais profundo de nossas tendências psíquicas. É o lugar da verdade, onde escolhemos a vida ou a morte. É o lugar do encontro, pois, à imagem de Deus, vivemos em relação; é o lugar da Aliança. A oração cristã é uma relação de Aliança entre Deus e o homem em Cristo. A vida de oração consiste em estar habitualmente na presença do Deus três vezes Santo e em comunhão com Ele. Esta comunhão de vida é sempre possível porque, pelo Batismo, nos tornamos um mesmo ser com Cristo. A oração é cristã enquanto comunhão com Cristo, e cresce na Igreja que é seu Corpo.” [ 2562-65]





[Do Catecismo da Igreja Católica – Sobre a Oração – Abraão – Texto 02]
         “O homem está à procura de Deus. Mesmo depois de ter perdido a semelhança com Deus por seu pecado, o homem continua sendo um ser feito à imagem de seu Criador. Conserva o desejo Daquele que o chama à existência. O Deus vivo e verdadeiro chama incessantemente cada pessoa ao encontro misterioso da oração. Essa atitude de amor fiel vem sempre em primeiro lugar na oração; a atitude do homem é sempre resposta a esse amor fiel.” [ 2566 e 2567]
         “A revelação da oração no Antigo Testamento se insere entre a queda e a elevação do homem, entre o chamado doloroso de Deus a seus primeiros filhos: ‘Onde estás?’... ‘Que fizestes?’ (Gn 3,9.13), e a resposta do Filho único ao entrar no mundo: ‘Eis-me aqui, eu vim, ó Deus, para fazer a tua vontade’ (Hb 10,5-7). A oração desta forma está ligada à história dos homens, é a relação com Deus nos acontecimentos da história. É sobretudo a partir das realidades da criação que se vive a oração. Em sua Aliança indefectível com os seres vivos, Deus sempre convida os homens a orar. Mas é a partir de nosso pai Abraão que a oração é revelada no Antigo Testamento. Seu coração se mostra submisso à Palavra, ele obedece. A escuta do coração que se decide segundo Deus é essencial à oração; as palavras são relativas. Mas a oração de Abraão se exprime primeiro por atos: como homem de silêncio, ele constrói, a cada etapa, um altar ao Senhor. Somente mais tarde aparece sua primeira oração com palavras: uma queixa velada que lembra a Deus suas promessas que parecem não se realizar. Desde o começo aparece assim um dos aspectos do drama da oração: a provação da fé na fidelidade de Deus. Mas tendo acreditado em Deus, o patriarca está disposto a acolher em sua tenda o hóspede misterioso: a admirável hospitalidade de Mambré. O coração de Abraão está sintonizado com a compaixão de seu Senhor pelos homens, e ele ousa interceder por eles com audaciosa confiança. Como última purificação de sua fé, Deus requer que Abraão sacrifique o filho que lhe dera. Sua fé não esmorece. O pai dos que crêem se configurou ao Pai que não há de poupar seu próprio Filho, mas o entregará por todos nós. A oração restaura o homem à semelhança de Deus e o faz participar do poder do amor de Deus que salva a multidão. A tradição espiritual da Igreja reteve dessa história de Abraão o símbolo da oração como combate da fé e vitória da perseverança.” [ 2568-2573]
        



[Do Catecismo da Igreja Católica – Sobre a Oração – Moisés – Texto 03]

         A oração se liga à história do homem, à relação do ser humano com Deus nos acontecimentos da história; em vista disso o Antigo Testamento nos mostra mais uma figura de oração: Moisés é a figura, por excelência, da oração de intercessão, que se realizará no Novo Testamento no “único Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus”. Mais uma vez é Deus quem vem primeiro, é Ele quem chama Moisés do meio da sarça ardente. “Esse acontecimento será sempre uma das figuras primordiais da oração na tradição espiritual judaica e cristã”. Deus se revela para salvar os homens, mas não sozinho, Ele chama Moisés para enviá-lo, para associá-lo à sua compaixão, à sua obra de salvação. Há assim uma imploração divina nesta missão de Moisés, que após longo embate conformará sua vontade com a de Deus salvador.
         “Deus fala com Moisés face a face, como um homem fala com outro. A oração de Moisés é típica da oração contemplativa graças à qual o servo de Deus é fiel à sua missão. Moisés ‘conversa’ muitas vezes com o Senhor, subindo a montanha para ouvi-lo e implorá-lo, e ao descer repetir as palavras de Deus ao povo e guiá-lo. Moisés era o mais humilde dos homens que havia na terra, condição que o faz íntimo de Deus. Da intimidade com o Deus fiel, lento para a cólera e cheio de amor, Moisés tirou a força de sua intercessão. Ele não ora por si, mas pelo povo de Deus. Ele intercede sem cessar, principalmente depois da apostasia do povo, quando Moisés se coloca diante de Deus. A intercessão é um combate misterioso. Os argumentos da oração de Moisés inspirarão os grandes orantes do povo judeu e de toda a Igreja: Deus é amor, justo e fiel, por isso não pode jamais abandonar o povo que traz seu nome”. [ 2574-2577]      




 [Do Catecismo da Igreja Católica – Sobre a Oração – Davi e Elias – Texto 04]

         Uma das grandes figuras de oração do Antigo Testamento é Davi, que, por excelência, é o rei “segundo o coração de Deus”, isto é, o pastor que ora por seu povo e em seu nome. Davi sabe submeter-se à vontade de Deus, e o seu louvor e o seu arrependimento será o modelo da oração do povo.
         Davi foi ungido por Deus e sua oração é a expressão da adesão fiel à promessa divina, é a confiança repleta de amor e alegria Naquele que é o único Rei e Senhor. “Nos Salmos, Davi inspirado pelo Espírito Santo, é o primeiro profeta da oração judaica e cristã.” [¶ 2579]
         O Templo de Jerusalém, a casa de oração que Davi queria construir será a obra de seu filho Salomão. O Templo devia ser para o povo de Deus o lugar de sua educação à oração: as peregrinações, as festas, os sacrifícios, a oferenda da tarde, o incenso, os pães da “proposição”, todos esses sinais da Santidade e da Glória de Deus eram apelos e caminhos da oração. Porém o ritualismo levava o povo para um culto muito exterior, faltava a educação da fé, a conversão do coração. Essa será a missão dos profetas, e aí temos outro grande nome do Antigo Testamento – Elias, o pai dos profetas, “da geração dos que procuram Deus, dos que buscam sua face”. É a oração fervorosa do justo. Elias aprende a misericórdia e ensina à viúva de Sarepta a fé na palavra de Deus, por meio da oração insistente quando Deus devolve à vida o filho da viúva.
         Será no Monte Tabor, na Transfiguração, que se revelará Aquele cuja face buscam os profetas. No “face a face” com Deus, os profetas se enchem de luz e força para a sua missão. Suas orações não são fugas do mundo infiel, mas momentos de escuta da Palavra de Deus, sempre uma intercessão confiante na intervenção do Deus salvador. [¶ 2581-2584]
         Eis, portanto, dois grandes modelos de oração para a nossa vida cristã: a do rei Davi, de arrependimento e de louvor e submissão a Deus, e a do profeta Elias, de misericórdia e confiança no Deus vivo e verdadeiro.





 [Do Catecismo da Igreja Católica Sobre a Oração – Os Salmos – Texto 05]

         Os Salmos ou “louvores” são a obra-prima da oração no Antigo Testamento. Eles alimentam e exprimem a oração do povo de Deus enquanto assembléia, por ocasião das grandes festas em Jerusalém.
         Esta oração dos Salmos é inseparavelmente pessoal e comunitária. Ela refere-se aos que oram e a todos os homens; lembra os acontecimentos salvíficos do passado e se estende até a consumação da história; recorda as promessas de Deus já realizadas e aguarda o Messias que as realizará definitivamente. Os Salmos são rezados e realizados em Cristo e essenciais à oração de Sua Igreja.
         O Saltério é o livro em que a Palavra de Deus se torna oração do homem, e nos demais livros do Antigo Testamento vemos as palavras proclamando as obras de Deus e elucidando os mistérios contidos nos Salmos. No Saltério, as palavras do salmista cantam as obras de salvação de Deus.
         Os Salmos nos ensinam continuamente a orar, a responder a Deus, a pedir, a agradecer, a louvar, a interceder. As várias formas de oração dos salmos tomam forma tanto na liturgia como no coração do homem. Eles podem refletir um acontecimento passado, porém podem ser rezados pelos homens de qualquer tempo.
         A oração dos Salmos é sempre motivada pelo louvor. E sobre isso nos diz Santo Ambrósio: Haverá algo melhor do que um Salmo? É por isso que Davi diz muito acertadamente: “Louvai o Senhor, pois o Salmo é uma coisa boa - a nosso Deus, louvor suave e belo!”. E é verdade. Pois, o Salmo é bênção pronunciada pelo povo, louvor de Deus pela assembléia, aplauso de todos, palavra dita pelo universo, voz da Igreja, melodiosa profissão de fé...”.[ 2585-2589]       





 [Do Catecismo da Igreja Católica: Sobre a Oração na Plenitude do Tempo – Jesus e Maria – Texto 06]

          O evento da oração nos é plenamente revelado no Verbo que se fez carne e habita entre nós. Buscar compreender Sua oração é aproximar-se do Santo Senhor Jesus: contemplá-lo na oração, ouvir como Ele nos ensina a orar, para conhecer como Ele atende a nossa prece.
        Quando o Filho de Deus se tornou Filho da Virgem, Ele rezou segundo seu coração de homem: aprendeu fórmulas de oração com sua mãe – as quais conservava e meditava no coração –, e aprendeu as palavras da oração do seu povo na sinagoga. Porém sua oração brota de uma fonte bastante secreta: “Eu devo estar na casa de meu Pai” [Lc 2,49]. É aí que se revela a novidade da oração: a oração filial. São Lucas destaca a ação do Espírito Santo e o sentido da oração no ministério de Cristo: Jesus ora antes dos momentos decisivos da sua missão e antes da escolha dos doze. A oração de Jesus é uma entrega, humilde e confiante, de sua vontade humana à vontade amorosa do Pai. E será contemplando e ouvindo o Filho que nós, filhos, aprenderemos a orar ao Pai. Jesus muitas vezes se retira na solidão, na noite, para orar e em sua oração leva consigo os homens, oferece-os ao Pai e se compadece de suas fraquezas para livrá-los delas. Suas palavras e obras serão a manifestação visível de sua oração “em segredo”. A profundidade insondável da oração filial de Jesus está nas palavras: “Abba... não seja feita a minha vontade, mas a tua” [Lc 22,42]; “Pai, em tuas mãos entrego meu espírito” [Lc 23,46]. Vemos nessas palavras que orar e entregar-se são um só e mesmo ato. [ 2598-2606]
        O caminho teologal de nossa oração é a oração ao Pai, que está nos céus. Mas Jesus como pedagogo ensina a oração aos homens tomando-os do ponto em que estão e, progressivamente, os conduz ao Pai. Jesus parte daquilo que eles já conhecem sobre a oração e revela-lhes a novidade do Reino. Da mesma forma, os seus discípulos deverão ser pedagogos da oração em Sua Igreja.
        No Sermão da Montanha, Jesus insiste na “conversão do coração” (reconciliação, amor aos inimigos, perdão, pureza de coração e busca do Reino). Tal conversão deve ser filial, ou seja, inteiramente orientada para o Pai. A fé é a adesão filial a Deus, acima daquilo que sentimos e compreendemos, e Jesus nos ensina a “audácia filial”: “Tudo quanto suplicardes e pedirdes, crede que já recebestes” [Mc 11,24]. “Tudo é possível para quem crê” [Mc 9,23]. A oração de fé, portanto, consiste em levar o coração a fazer a vontade do Pai e cooperar com o plano divino. Outro ponto que Jesus ressalta é a “vigilância” na oração, que nos livra de cair em tentação.
         Quando Jesus voltou ao Pai, ensinou aos homens e discípulos a orarem em Seu nome, a pedirem em Seu nome, pois Jesus é o Caminho, a Verdade e a Vida. Portanto, é no Espírito Santo que a oração cristã é comunhão de amor com o Pai, não apenas por Cristo, mas também Nele. São Lucas nos apresenta três parábolas sobre a oração, que é importante conservarmos em nosso coração: 1. “o amigo importuno”, que nos convida a oração persistente [11, 5-13]; 2. “a viúva importuna”, que nos ensina a rezar sempre sem esmorecimento, com a paciência da fé [18,1-8]; 3. “o fariseu e o republicano”, que nos ensina a humildade do coração que reza [18, 9-14]. [ 2607-2616]
         Ainda devemos aprender sobre a oração com Maria, a Mãe de Deus. Sua oração coopera de maneira única com o plano do Pai. Na fé de sua humilde serva, o Dom de Deus encontra acolhimento: “Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra”. O Fiat de Maria é a própria oração cristã e o seu cântico Magnificat é o canto da própria Igreja. [ 2617-2619]




 [Do Catecismo da Igreja Católica: Sobre a Oração no Tempo da Igreja – Texto 07]

         No dia de Pentecostes, o Espírito da promessa foi derramado sobre os discípulos. O mesmo Espírito que ensina a Igreja e lhe recorda tudo o que Jesus disse, também vai formá-la para a vida de oração. A oração da Igreja está fundada na fé apostólica, autenticada pela caridade e alimentada pela Eucaristia. Essas orações são as que os fiéis ouvem e lêem nas Escrituras, atualizando-as, porém, principalmente as dos Salmos, a partir de sua realização em Cristo. [ 2623-2625]
As formas da oração, como nos são reveladas pelas Escrituras apostólicas canônicas, serão normativas da oração cristã: bênção e adoração; súplica; intercessão; ação de graças e louvor. A bênção exprime o movimento de fundo da oração – é o encontro de Deus e do homem, nela o dom de Deus e a acolhida do homem se unem. Duas formas exprimem o movimento da bênção: ora ela sobe levada no Espírito por Cristo ao Pai (nós O bendizemos), ora ela desce de junto do Pai, por Cristo, implorada pela graça do Espírito Santo (somos abençoados por Ele). A adoração é a primeira atitude do homem que se reconhece criatura diante de seu Criador. É o movimento de prosternação do Espírito diante do “Rei da glória” e o silêncio respeitoso diante do Deus “sempre maior”.
         No Novo Testamento, o vocabulário “súplica” tem muitos matizes, mas o mais habitual é o “pedido”. É pela oração de súplica que exprimimos a consciência de nossa relação com Deus – como criaturas e pecadores. Com Cristo, o pedido da Igreja é sustentado pela esperança da nossa salvação, pois o Espírito “socorre nossa fraqueza, pois nem sequer sabemos o que seja conveniente pedir” [Rm 8,26]. O pedido de perdão é o primeiro movimento da oração de súplica, é a condição prévia de uma oração justa e pura, assim como condição de toda liturgia eucarística e oração pessoal. [ 2626-2633]
         A intercessão é uma oração de pedido que nos conforma de perto com a oração de Jesus – único intercessor junto ao Pai. Interceder, pedir em favor de outro, desde Abraão, é próprio de um coração que está em consonância com a misericórdia de Deus. No tempo da Igreja, a intercessão cristã participa da de Cristo, é comunhão dos Santos. Na intercessão, aquele que ora “não procura seus próprios interesses, mas pensa, sobretudo, nos dos outros” [Fl 2,4]. Já a oração de ação de graças caracteriza a oração da Igreja. A ação de graças dos membros do Corpo participa da de sua Cabeça. Todo acontecimento e toda necessidade podem se tornar oferenda de ação de graças: “Por tudo dai graças, pois esta é a vontade de Deus a vosso respeito, em Cristo Jesus” [1 Ts 5,18]. Por fim, chegamos ao louvor como a forma de oração que reconhece o mais imediatamente possível que Deus é Deus! Canta-O e dá-Lhe glória, mais do que pelas coisas que Ele faz, por aquilo que Ele é. A Eucaristia contém e exprime todas as formas de oração. É a “oferenda pura” de todo o Corpo de Cristo “para a glória de seu Nome”. A Eucaristia é o sacrifício de louvor. [ 2634-2643]




 [Do Catecismo da Igreja Católica: A Tradição da Oração nas suas Fontes – Texto 08]

         A oração não se reduz a um espontâneo impulso interior; é preciso querer rezar. Não basta saber o que diz as Escrituras sobre a oração; é preciso aprender a rezar. É pela transmissão viva (a Tradição), que o Espírito Santo, na Igreja crente e orante, ensina os filhos de Deus a rezar. A tradição da oração cristã é uma das formas de crescimento da Tradição da fé, pela contemplação e pelo estudo dos acontecimentos e palavras da Economia da salvação, que os fiéis guardam em seu coração. [ 2650-2651]
         Existem na vida cristã fontes em que Cristo nos espera para saciar nossa sede com o Espírito Santo, seja na escuta da Palavra, na participação da Liturgia, no exercício das virtudes teologais ou na atenção e observância dos acontecimentos do nosso dia a dia.
         A Igreja exorta os fiéis a uma freqüente leitura das Sagradas Escrituras, para que aprendam a “ciência de Jesus Cristo”, porém essa leitura deve ser acompanhada pela oração, a fim de que se estabeleça o colóquio entre Deus e o homem: “Procurai pela leitura, e encontrareis meditando; batei orando, e vos será aberto pela contemplação” [Guigo, o cartuxo].
         O Mistério da salvação anunciado e atualizado na Liturgia prolonga-se no coração de quem reza, pois a oração interioriza e assimila a Liturgia. Ela é sempre oração da Igreja, comunhão com a Santíssima Trindade. Alguns Padres da Igreja chegavam a comparar o coração do homem a um altar.
A porta pela qual entramos na oração e também na Liturgia é a mesma porta estreita da fé. E o Espírito Santo nos educa a orar na esperança: “Esperei ansiosamente pelo Senhor, Ele se inclinou para mim e ouviu o meu grito” (Salmo 40,2). O Amor é a fonte da oração; quem dela bebe atinge o cume da oração: “Meu Deus, se minha língua não pode dizer a cada instante que eu vos amo, quero que meu coração vo-lo repita tantas vezes quantas eu respiro”. [S. João Maria Vianney]
Em todos esses momentos acima descritos aprendemos a rezar, mas é em todos os tempos, nos acontecimentos de cada dia, que o Espírito de Deus nos é oferecido para fazer jorrar a oração. É no tempo presente que encontramos Deus, nem ontem, nem amanhã, mas hoje: “Oxalá ouvísseis hoje a sua voz! Não endureçais vossos corações” (Salmo 95,8). Orar nos acontecimentos de cada dia e de cada instante é um dos segredos do Reino revelado aos “pequeninos”, aos servos de Cristo, pois é importante modelar pela oração a massa das humildes situações do cotidiano. [ 2652-2660]
        



[Do Catecismo da Igreja Católica: O caminho da Oração - Texto 09]

         Não existe outro caminho da oração cristã senão Cristo. Seja a oração comunitária ou pessoal, vocal ou interior, ela só tem acesso ao Pai se orarmos em nome de Jesus. A santa humanidade de Jesus é o caminho pelo qual o Espírito Santo nos ensina a orar a Deus. Ainda que dirigida ao Pai, há formas de oração dirigida a Cristo, ao Nome que tudo contém: Jesus. Orar a Jesus é invocá-lo, chamá-lo em nós. Seu Nome é o único que contém a Presença que significa. A invocação do santo nome de Jesus é o caminho mais simples da oração contínua. [ 2664-2669]
         “Ninguém pode dizer ‘Jesus é o senhor’ a não ser no Espírito Santo” (1 Cor 12,3). Cada vez que começamos a orar a Jesus é o Espírito que nos atrai para a oração. Para isso, a Igreja nos ensina a implorar cada dia o Espírito Santo. A forma tradicional para esse pedido é invocar o Pai por Cristo. Porém a oração mais simples é “Vinde, Espírito Santo”. O Espírito Santo é o Mestre interior da oração cristã. Há muitos caminhos da oração, mas o Espírito que nela atua é o mesmo. [ 2670-2672]
         Na oração, o Espírito Santo nos une à Pessoa do Filho em sua humanidade. Por ela, a oração filial entra em comunhão, na Igreja, com a Mãe de Jesus. Jesus é o Mediador, é o Caminho, mas sua Mãe Maria “mostra o caminho” (Hodoghitria). Maria cooperou com a ação do Espírito Santo exaltando o Senhor pelas maravilhas que fez à sua humilde serva, e também por levar a Deus as súplicas e louvores dos filhos de Deus. Assim a Igreja desenvolveu muitas orações a Maria, principalmente a Ave Maria. No Oriente temos o Acatisto e a Paráclise. Maria é a Orante perfeita, figura da Igreja. [ 2673-2679]



[Do Catecismo da Igreja Católica: Guias para a Oração
2683-2691 - texto 10]

         As testemunhas que nos precederam no Reino, especialmente aquelas que a Igreja reconhece como “santos”, participam da tradição viva da oração pelo exemplo modelar de sua vida, pela transmissão de seus escritos e por sua oração hoje. Pois os santos contemplam e louvam a Deus e não deixam de interceder por aqueles que estão na terra. A sua intercessão é o mais alto serviço que prestam ao plano de Deus, por isso devemos pedir-lhes que intercedam por nós.
         Nessa comunhão dos santos, desenvolveram-se, ao longo da história da Igreja, diversas espiritualidades cristãs, que participam da tradição viva da oração e são guias indispensáveis para os fiéis, refletindo em sua rica diversidade a única Luz do Espírito Santo: “O Espírito é de fato o lugar dos santos, e o santo é para o Espírito um lugar próprio, pois se oferece para habitar com Deus e é chamado seu templo” (São Basílio – Tratado sobre o Espírito Santo)
         A família cristã é o primeiro lugar da educação para a oração. Fundada sobre o sacramento do matrimônio, ela é a “Igreja doméstica”, onde os filhos de Deus aprendem a orar e a perseverar na oração. Para as crianças, a oração familiar cotidiana é o primeiro testemunho da memória viva da Igreja.
         Os ministros ordenados são responsáveis pela formação para a oração; eles são ordenados para guiar o povo de Deus às fontes vivas da oração: a Palavra de Deus, a Liturgia, a vida teologal, o Hoje de Deus nas situações concretas.
         Os religiosos que consagraram sua vida à oração, desde o deserto do Egito, eremitas, monges e monjas, consagraram seu tempo ao louvor a Deus e a intercessão pelo povo. Esta vida consagrada não se mantém e não se propaga sem a oração.
         A catequese das crianças, jovens e adultos deve procurar fazer com que a Palavra de Deus seja meditada na oração pessoal, atualizada na oração litúrgica e interiorizada em todo tempo da vida, a fim de produzir frutos. A memorização de orações fundamentais oferece um apoio indispensável à vida de oração, mas é estritamente necessário que se saboreie o sentido das orações ditas.
         Os grupos de oração ou escolas de oração são hoje um dos sinais e molas da renovação da oração na Igreja, contanto que se beba nas fontes autênticas da oração cristã.
         Os diretores espirituais são verdadeiros servidores da tradição viva da oração, pois recebem de Deus, por meio do Espírito Santo, os dons da sabedoria, da fé e do discernimento em vista do bem comum que é a oração. “O diretor espiritual não deve apenas ser sábio e prudente, mas também experimentado... Se o guia espiritual não tem a experiência da vida espiritual, é incapaz de nela conduzir as almas que Deus chama.” (S. João da Cruz)
         Além dos vários servidores da oração, acima expostos, há muitos lugares favoráveis à oração. Na família, a oração pessoal pode dar-se num pequeno oratório, onde podemos estar ali “em segredo” com o Pai. Quanto aos Mosteiros, eles têm a vocação de favorecer e partilhar a Oração das Horas com os fiéis. As peregrinações são tradicionalmente tempos fortes de renovação da oração, e os santuários são lugares excepcionais para viver “como Igreja” as formas da oração cristã. Porém é na Igreja, casa de Deus, que vivemos o lugar próprio para a oração litúrgica da comunidade, e também é o lugar privilegiado da adoração da presença real de Cristo no Santíssimo Sacramento.
        
        


 [Do Catecismo da Igreja Católica: A Vida de Oração
2697-2719 – Texto 11]

         A oração é a vida do coração novo e deve nos animar a cada momento. Por isso os Padres espirituais, na tradição do Deuteronômio e dos profetas, insistem na oração como “recordação de Deus”, como um despertar freqüente da “memória do coração”: “É preciso se lembrar de Deus com mais frequência do que se respira” (S. Gregório Nazianzeno). Mas para orar “sempre” é preciso rezar em alguns momentos: são os tempos fortes da oração cristã.
         A Tradição da Igreja propõe aos fiéis ritmos de oração destinados a nutrir a oração contínua: a oração da manhã e da tarde, antes e depois das refeições, a Liturgia das Horas. O domingo, centrado na Eucaristia, é santificado principalmente pela oração.
         O Senhor conduz cada pessoa, e cada fiel responde ao Senhor segundo a determinação do seu coração e as expressões pessoais de sua oração. Porém a tradição cristã conservou três expressões principais da vida de oração: a oração vocal, a meditação, a oração contemplativa. A característica fundamental das três é o recolhimento do coração, a vigilância em guardar a Palavra e permanecer na presença de Deus.
         A oração vocal. Essa oração é um dado indispensável da vida cristã, que o próprio Jesus nos ensinou: o Pai Nosso. Mas para que a nossa oração seja ouvida é necessário o fervor da nossa alma. É preciso rezar com todo o nosso ser. Tal necessidade corresponde a uma exigência divina, pois Deus procura adoradores em Espírito e Verdade, ou seja, uma oração que venha das profundezas da alma. A oração vocal sendo exterior é por excelência a oração das multidões.
A meditação. Tal oração é sobretudo uma procura. O espírito procura compreender o porquê e o como da vida cristã, a fim de aderir ao Senhor. Para tanto é indispensável uma atenção difícil de ser disciplinada. Diversos são os métodos de meditação assim como os mestres espirituais; o cristão, no entanto, deve querer meditar regularmente, caso contrário se assemelhará aos três primeiros terrenos da parábola do semeador. Ele deve ainda saber que o método é apenas um guia, pois o importante é avançar com o Espírito Santo pelo único caminho da oração: Jesus Cristo. A meditação mobiliza o pensamento, a imaginação, a emoção e o desejo, e tal mobilização é necessária para aprofundar as convicções de fé, suscitar a conversão do coração e fortificar a vontade de seguir a Cristo.
         A oração mental. “A oração mental, a meu ver, é apenas um relacionamento íntimo de amizade em que conversamos muitas vezes a sós com esse Deus por quem nos sabemos amados” (Stª Teresa de Jesus). A oração mental busca aquele que meu coração ama: Jesus. Nem sempre se pode meditar, mas sempre se pode estar em oração. O coração é o lugar da busca e do encontro, na pobreza e na fé. Entrar em oração é algo análogo ao que ocorre na Liturgia Eucarística: “reunir” o coração, recolher todo o nosso ser sob a moção do Espírito Santo, despertar a fé, para entrar na Presença daquele que nos espera e nos entregarmos como oferenda a ser purificada. A oração é a prece do pecador perdoado que acolhe o amor do Pai, é a entrega humilde à vontade amorosa do Pai. A oração é um dom, uma graça, e não pode ser acolhida senão na humildade e na pobreza. A contemplação é olhar de fé fito em Jesus. A luz do Seu olhar ilumina os olhos de nosso coração. A oração mental é escuta obediente da Palavra e silêncio. Ela é comunhão de amor portadora de vida: a Ressurreição, porém antes passa pela agonia e pelo túmulo. São esses três tempos fortes da Hora de Jesus que seu Espírito faz viver na oração. É preciso consentir em “vigiar uma hora com Ele”.




[Do Catecismo da Igreja Católica: A Vida de Oração – o combate da Oração
2725-2751 - Texto 12]

         A oração é um dom da graça e uma resposta decidida de nossa parte. Os grandes orantes da Antiga Aliança antes de Cristo, como também a Mãe de Deus e os santos com Ele, nos ensinam: a oração é um combate contra nós mesmos e contra os embustes do Tentador. Reza-se como se vive, porque se vive como se reza. O “combate espiritual” da vida nova do cristão é inseparável do combate da oração.
         No combate da oração devemos enfrentar em nós e em nossa volta concepções errôneas da oração (como se fosse incompatível com os nossos afazeres do dia a dia), mentalidades “deste mundo” (que nos tiram da vigilância), e nossos fracassos pessoais (desânimo, tristeza, decepção). Para superar tudo isso é preciso lutar para se ter humildade, confiança e perseverança.
         A dificuldade comum da nossa oração é a distração. Uma distração nos revela aquilo a que estamos amarrados, e essa tomada de consciência humilde diante do Senhor deve despertar nosso amor preferencial por Ele. Aí se situa o combate: a escolha do Senhor a quem servir. O combate contra nosso “eu” possessivo e dominador é a vigilância, a sobriedade do coração. Outra dificuldade é a aridez, e ela acontece quando o coração está desanimado. Se a aridez é causada pela falta de raiz, porque a Palavra caiu sobre as pedras, o combate deve ir na linha da conversão.
         Devemos também estar atentos a duas tentações na oração: a falta de fé, que se manifesta no amor preferencial que damos às coisas, e a acídia, ou seja, a preguiça (espécie de depressão, para os Padres), que diminui a nossa vigilância.
Outro ponto importante da nossa vida de oração é a confiança filial, que nos faz crer que seremos atendidos. Porém muitas pessoas deixam de orar por acreditar que não serão ouvidas. Será que pedimos o que convém? Aquilo de que precisamos? “Não possuís porque não pedis. Pedis, mas não recebeis, porque pedis mal, com o fim de gastardes nos vossos prazeres” (Tg 4,2-3). Se pedimos com um coração dividido, “adúltero”, Deus não nos pode ouvir.
         A revelação da oração na economia da salvação nos ensina que a fé se apóia na ação de Deus na história. A oração cristã é cooperação com a Providência, com o plano de amor para os homens. A oração de Jesus faz da oração cristã uma súplica eficaz. Jesus reza em nós e conosco. Todos os nossos pedidos foram recolhidos uma vez por todas em seu grito na cruz e ouvidos pelo Pai em sua Ressurreição.
         Orar é sempre possível: o tempo do cristão é o de Cristo ressuscitado que “está conosco todos os dias”, apesar de todas as tempestades. Orar é uma necessidade vital: a oração torna possível o que é impossível, fácil o que é difícil. Oração e vida cristã são inseparáveis. “Ora sem cessar aquele que une a oração às obras e as obras à oração. Somente dessa forma podemos considerar como realizável o princípio de orar sem cessar.”
         É entrando no santo nome do Senhor Jesus que podemos acolher, interiormente, a oração que Ele nos ensina: “Pai Nosso”. É nessa oração que Jesus nos revela e nos dá o “conhecimento” indissociável do Pai e do Filho, que é o próprio mistério da Vida de oração.




[Do Catecismo da Igreja Católica: A Oração do Senhor: “Pai Nosso” 2759-2772 - Texto 13]

         Um dia Jesus rezava. Quando terminou, um de seus discípulos pediu-lhe: “Senhor, ensina-nos a orar.” É em resposta a este pedido que o Senhor confia a seus discípulos e à sua Igreja a oração cristã fundamental: o Pai Nosso. Depois de nos ter legado esta fórmula de oração, o Senhor acrescentou: “Pedi e vos será dado” (Jo 16,24). Cada pessoa pode dirigir ao Pai diversas orações conforme suas necessidades, mas deve começar sempre pela Oração do Senhor.
         Os Salmos são o alimento principal da oração cristã e convergem nos pedidos do Pai Nosso: “percorrei todas as orações que se encontram na Escritura, e eu não creio que possais encontrar nelas algo que não esteja incluído na oração do Senhor (Sto. Agostinho). Todas as Escrituras se realizam em Cristo. O Sermão da Montanha é doutrina de vida, a Oração do Senhor é oração, mas em ambos o Espírito do Senhor dá forma nova aos nossos desejos, isto é, a estas moções interiores que animam nossa vida. Da retidão de nossa oração dependerá a retidão de nossa vida em Cristo.
         A Oração do Pai Nosso nos foi ensinada e dada pelo Senhor Jesus, e mediante as palavras desta Oração, o Filho nos dá as palavras que o Pai lhe deu; Ele é o Mestre de nossa oração, e como o Verbo encarnado, Ele conhece em seu coração de homem as necessidades de seus irmãos humanos e as revela a nós, sendo o Modelo de nossa oração. A possibilidade de nossa oração filial consiste no fato de que o Pai enviou aos nossos corações o Espírito de seu Filho, que clama Abba, Pai. O Senhor também nos ensina a rezar
nossas orações em comum por todos os nossos irmãos, “nosso Pai”, a fim de que nossa oração seja, com um só coração e uma só alma, por todo o Corpo da Igreja.
         Em todas as tradições litúrgicas, a Oração do Senhor é parte integrante das grandes horas do Ofício Divino e, sobretudo, nos três sacramentos da iniciação cristã: Batismo, Confirmação e Eucaristia. Nos dois primeiros, a Oração do Senhor significa o novo nascimento para a vida divina, é por isso que a maioria dos comentários patrísticos do Pai Nosso são dirigidos aos catecúmenos e aos neófitos. Quando a Igreja reza a Oração do Senhor, é sempre o povo dos “renascidos” que reza e obtém misericórdia. Na Eucaristia, a Oração do Senhor aparece como a oração de toda a Igreja e manifesta o caráter escatológico de seus pedidos, é a oração dos tempos da salvação, que começaram com a efusão do Espírito Santo e que terminarão com a volta do Senhor. A Eucaristia e o Pai Nosso apontam para a vinda do Senhor, “até que Ele venha” (1Cor 11,26).




 [Do Catecismo da Igreja Católica: A Oração do Senhor: “Pai Nosso que estais no céu” 2777-2796 – Texto 14]

         Antes de fazer nossa a primeira invocação da Oração do Senhor – “Pai” – convém purificar humildemente nosso coração. A humildade nos faz reconhecer que “ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho quiser revelar” (Mateus 11,27). Orar ao Pai é entrar em seu mistério, tal qual Ele é, e tal como o Filho no-lo revelou. Podemos invocar a Deus como “Pai”, porque Ele nos foi revelado por seu Filho feito homem e porque seu Espírito no-lo fez conhecer.
         A primeira palavra da Oração do Senhor é uma bênção de adoração, antes de ser uma súplica. Pois a glória de Deus é que nós o reconheçamos como “Pai”, e podemos adorá-lo como “Pai” porque Ele nos adotou como filhos em seu único Filho, pelo Batismo. Pela Oração do Senhor, somos revelados a nós mesmos, ao mesmo tempo em que o Pai nos é revelado. Esse dom gratuito da adoção exige de nossa parte uma conversão contínua e uma vida nova. Rezar a nosso Pai deve desenvolver em nós duas disposições fundamentais: o desejo e a vontade de assemelhar-se a Ele. Pois fomos criados à sua imagem, porém é somente pela graça que a semelhança nos é dada.
         Pai “Nosso” refere-se a Deus e o adjetivo “nosso” não exprime uma posse, mas uma relação inteiramente nova com Deus. Por essa expressão, reconhecemos que todas as suas promessas de amor anunciadas pelos profetas se cumprem na nova e eterna aliança em Cristo. Nós nos tornarmos “seu” povo e Ele é “nosso Deus”, é uma pertença mútua dada gratuitamente pelo amor e fidelidade. Rezando ao “nosso” Pai é ao Pai de Jesus que nos dirigimos, guiados pelo Espírito. Portanto, é à Santíssima Trindade que rezamos, na adoração e glorificação ao Pai com o Filho e o Espírito Santo. É uma oração de comunhão, e a Igreja é essa nova comunhão entre Deus e os homens. Assim quando rezamos verdadeiramente “nosso” Pai, cada batizado sai do seu individualismo e reza na comunhão. Os batizados não podem rezar ao Pai “nosso” sem levar para junto Dele todos aqueles por quem Ele entregou seu Filho amado. O amor de Deus é sem fronteiras, assim como nossa oração também deve ser.
         A expressão “que estais no céu” não significa um lugar espacial, mas uma maneira de ser; não significa o afastamento de Deus, mas sua majestade. Nosso Pai não está em outro lugar, Ele está “para além de tudo”, Ele está bem próximo do coração humilde e contrito – o coração dos justos, onde Ele habita. O símbolo do céu nos remete ao mistério da Aliança, que vivemos quando rezamos ao Pai. O pecado nos exilou da Casa do Pai, mas Ele nos deu seu Filho, Jesus, único capaz de nos religar à Casa do Pai, a partir da conversão do nosso coração.
Quando a Igreja reza “Pai nosso que estais no céu”, professa que somos o Povo de Deus já assentado no céu, em Jesus Cristo, “escondidos com Cristo em Deus”, mas ao mesmo tempo “gememos pelo desejo de revestir por cima de nossa morada terrena a nossa habitação celeste” (2Cor 5,2).



 [Do Catecismo da Igreja Católica: A Oração do Senhor: primeiro pedido “Santificado seja vosso Nome” 2807-2815 – Texto 15]

         Devemos entender aqui o termo “santificar” não primeiramente como causa, ou seja, só Deus santifica, torna santo, mas sobretudo num sentido estimativo: de reconhecer como santo. É dessa maneira que na adoração, a invocação “santificado seja vosso Nome” pode ser compreendida como louvor e ação de graças.
         Porém esse pedido, de santificar o Nome, nos é ensinado por Jesus como um pedido de desejo e espera, pois desde o primeiro pedido a nosso Pai, somos mergulhados no mistério íntimo de sua Divindade e no evento da salvação de nossa humanidade: o pedido para que seu nome seja santificado nos envolve na “decisão prévia que lhe aprouve tomar” (Ef 1,9) para “sermos santos e irrepreensíveis diante dele no amor” (Ef 1,4). É o chamado dos eleitos à vida santa, pois primeiro é o amor de Deus por nós, que inspira a sua “eleição” e o chamado para a “santidade”.
         Ao revelar seu Nome, Deus o faz realizando a sua obra, que só se realiza para nós e em nós se seu Nome for santificado por nós e em nós. A santidade de Deus é o centro inacessível de seu mistério eterno. Em Jesus, o Nome do Deus Santo nos é revelado e dado, na carne, como Salvador. O cerne de sua oração sacerdotal: “Pai santo... por eles a mim mesmo me santifico, para que sejam santificados na verdade” (Jo 17,19), nos mostra que é por “santificar” Ele mesmo o seu nome, que Jesus nos “manifesta” o Nome do Pai.
         Na água do Batismo fomos “lavados, santificados, justificados em nome do Senhor Jesus Cristo e pelo Espírito de nosso Deus” (1Cor 6,11). Durante toda a nossa vida, nosso Pai “nos chama à santidade” (1Ts 4,7). Depende, inseparavelmente, de nossa vida e de nossa oração que seu Nome seja santificado entre os povos: quando dizemos “santificado seja vosso Nome”, pedimos que ele seja santificado em nós que estamos nele, mas também nos outros que a graça de Deus ainda aguarda, a fim de conformar-nos ao preceito que nos obriga a rezar por todos, mesmo por nossos inimigos. Esse pedido, que contém todos os pedidos, é atendido pela oração de Jesus: “Pai santo, guarda em teu Nome os que me deste” (Jo 17,11).



[Do Catecismo da Igreja Católica: A Oração do Senhor: segundo pedido “Venha a nós o vosso Reino” 2816-2821 - Texto 16]

         O Reino de Deus existe antes de nós. Aproximou-se no Verbo encarnado, é anunciado ao longo de todo o Evangelho, veio na morte e na Ressurreição de Cristo. O Reino de Deus vem desde a santa Ceia e na Eucaristia: ele está no meio de nós. O Reino virá na glória quando Cristo o restituir a seu Pai. Segundo São Cipriano, o Reino de Deus pode até significar o Cristo em pessoa, assim como Ele é nossa Ressurreição, assim também pode ser o Reino de Deus.
         Este pedido que fazemos ao rezar o Pai Nosso, “Venha a nós o vosso Reino”, é o “Marana Tha”, o grito do Espírito e da Esposa: “Vem, Senhor Jesus”. Na Oração do Senhor, trata-se principalmente da vinda final do Reinado de Deus mediante o retorno de Cristo. Porém esse desejo do retorno de Cristo não desvia a Igreja de sua missão neste mundo, antes a empenha ainda mais. A partir de Pentecostes a vinda do Reino é obra do Espírito do Senhor “para santificar todas as coisas, levando à plenitude a sua obra.” “O Reino de Deus é justiça, paz e alegria no Espírito Santo” (Rm 14,17). Os tempos que estamos vivendo são os tempos da efusão do Espírito, e “só um coração puro (nas ações, palavras e pensamentos) pode dizer com segurança: Venha a nós o vosso Reino” [Cirilo de Jerusalém].
         Será no trabalho de discernimento segundo o Espírito, que os cristãos devem distinguir entre o crescimento do Reino de Deus e o progresso da cultura e da sociedade em que estão empenhados. Tal distinção não significa separação, pois a vocação do homem para a vida eterna não suprime, mas, antes, reforça o seu dever para servir neste mundo à justiça e à paz.




[Do Catecismo da Igreja Católica: A Oração do Senhor: terceiro pedido “Seja feita a vossa Vontade assim na terra como no céu” 2822-2827 - Texto 17]

         É vontade de nosso Pai “que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm 2,3-4). Seu mandamento que nos diz toda a sua vontade é que “nos amemos uns aos outros, como Ele nos amou”.
         No Cristo, e por sua vontade humana, a Vontade do Pai foi realizada completa e perfeitamente. Jesus disse ao entrar neste mundo: “Eis-me aqui, eu vim, ó Deus, para fazer a tua vontade” (Hb 10,7). Na oração de sua agonia, Jesus consente totalmente com esta vontade do Pai, e é por isso que Ele se entrega a si mesmo por nossos pecados. Por esse cumprimento da vontade é que somos santificados.
         Jesus, embora fosse Filho, aprendeu a obediência pelo sofrimento. Nós, criaturas pecadoras, que nos tornamos Nele filhos adotivos, pedimos ao nosso Pai que uma nossa vontade à de seu Filho para realizar sua Vontade, seu plano de salvação. Somos incapazes de fazer a Vontade de Deus sem a união com Cristo e a força do Espírito Santo.
         Pela oração é que podemos “discernir qual é a vontade de Deus” (Rm 12,2) e obter “a perseverança para cumpri-la” (Ef 5,17). Jesus nos ensina que entramos no Reino dos céus não por palavras, mas “praticando a vontade de meu Pai que está nos céus” (Mt 7,21). Tal é a força da oração da Igreja em Nome de seu Senhor, sobretudo na Eucaristia; é comunhão de intercessão com a Santíssima Mãe de Deus e com todos os santos que foram “agradáveis” ao Senhor por não terem querido fazer senão a Sua Vontade.




[Do Catecismo da Igreja Católica: A Oração do Senhor: quarto pedido “O pão nosso de cada dia nos dai hoje” 2828-2837 - Texto 18]

         “Dai-nos” expressa a confiança dos filhos que tudo esperam do Pai, e Jesus nos ensina a fazer este pedido, que glorifica nosso Pai, porque reconhece como Ele é bom para além de toda bondade. O “dai-nos” ainda expressa a Aliança de que pertencemos a Ele e Ele pertence a nós, e também o reconhecemos como Pai de todos os homens, pelos quais pedimos em solidariedade às suas necessidades e sofrimentos.
        Assim como o Pai nos dá a vida, Ele também nos dá o alimento necessário para mantê-la, é o “pão nosso”, que em cooperação com a Providência nos é dado. A fome daqueles a quem falta o pão, revela a profundidade deste pedido, que convoca os cristãos para uma responsabilidade efetiva em relação aos irmãos. Tal pedido não pode ser isolado das parábolas do pobre Lázaro e do Juízo Final. Trata-se de “nosso” pão, “um” para “muitos”, pois a pobreza das bem-aventuranças é a virtude da partilha dos bens materiais e espirituais, por amor e em socorro das necessidades dos outros.
        “Reza e trabalha” (Ora et Labora, São Bento): “Rezai como se tudo dependesse de Deus e trabalhai como se tudo dependesse de vós” (Santo Inácio de Loyola). Quando realizamos nosso trabalho, o alimento nos vem como um dom de nosso Pai. Porém este pedido implica numa outra fome da qual os homens padecem: “O homem não vive apenas de pão, mas de tudo aquilo que procede da boca de Deus”, isto é, sua Palavra e seu Sopro. Os cristãos devem anunciar o Evangelho aos pobres, pois há uma fome na terra de “ouvir a Palavra de Deus”. Por isso, este quarto pedido refere-se, no sentido cristão, ao Pão da Vida – o Corpo de Cristo recebido na Eucaristia.
       O “hoje” é também uma expressão de confiança e não se refere somente ao nosso tempo mortal, mas ao Hoje de Deus: Se recebes o pão de cada dia, cada dia é para ti hoje. Se Cristo está ao teu dispor hoje, todos os dias Ele ressuscita para ti. (Santo Ambrósio).
      “De cada dia”, essa expressão usada em sentido temporal nos confirma a confiança no Pai; em sentido qualitativo, significa o necessário à vida; e em sentido mais amplo, todo o bem suficiente para a subsistência. Literalmente é o Pão da Vida, o Corpo de Cristo, sem o qual não temos a vida em nós. Em sentido celeste, o “Dia”, é o Dia do Senhor, antecipado na Eucaristia, que é o antegozo do Reino: Cristo é Ele mesmo o pão que, semeado na Virgem, levedado na carne, amassado na Paixão, cozido no forno do sepulcro, colocado em reserva na Igreja, levado aos altares, proporciona cada dia aos fiéis um alimento celeste (São Pedro Crisólogo).




[Do Catecismo da Igreja Católica: A Oração do Senhor: quinto pedido “Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos aos que nos têm ofendido” 2838-2845 - Texto 19]

         A primeira parte do pedido, “perdoai-nos as nossas ofensas”, está incluída nos três primeiros pedidos da Oração do Senhor, pois o sacrifício de Cristo nos remiu dos pecados, porém a segunda parte do pedido, “assim como nós perdoamos aos que nos têm ofendido”, deixa claro que nosso pedido só será atendido se antes correspondermos a uma exigência: nosso pedido é voltado ao futuro e nossa resposta deve precedê-lo.
         Quando começamos o Pai Nosso, pedimos ao Pai a graça de sermos santificados, pois embora revestidos da veste batismal não deixamos de pecar e de nos desviar de Deus. Portanto, esse quinto pedido é como um voltar-se ao Pai a exemplo do filho pródigo, e um reconhecer-se pecador como o publicano. Começamos o pedido confessando nossa miséria e confiando na Misericórdia do Pai.
         No entanto, a imensa misericórdia de Deus não pode penetrar em nosso coração enquanto não tivermos perdoado aos que nos ofenderam. Recusando-nos a perdoar nossos irmãos e irmãs, nosso coração se fecha, sua dureza o torna impermeável ao amor misericordioso do Pai, mas na medida em que confessamos nossos pecados, nosso coração se abre à Sua graça.
         O “como” desse quinto pedido não é o único no ensinamento de Jesus: “Deveis ser perfeitos ‘como’ vosso Pai celeste é perfeito”; “Sede misericordiosos ‘como’ vosso Pai é misericordioso”; “que vos ameis uns aos outros ‘como’ eu vos amei”. É impossível observar esses mandamentos se buscamos imitá-lo de “fora”. É necessária uma participação vital na Santidade, na Misericórdia e no amor de Deus, e somente o Espírito pode fazer “nossos” os mesmos sentimentos que teve Cristo Jesus. É, portanto, no fundo do coração que tudo se faz e se desfaz. Não está em nosso poder não mais sentir e esquecer a ofensa, mas o coração que se entrega ao Espírito Santo transforma a ferida em compaixão e intercessão.
         A oração cristã deve chegar até o perdão dos inimigos, configurando o discípulo ao seu Mestre. O dom da oração não pode ser recebido a não ser num coração em consonância com a compaixão divina. O perdão é o testemunho de que o amor é mais forte que o pecado.
         A comunhão da Santíssima Trindade é a fonte e o critério da verdade de toda relação. E tal comunhão é vivida na oração, sobretudo na Eucaristia, e como nos diz São Cipriano: Deus não aceita o sacrifício dos que fomentam a desunião, Ele quer ser pacificado com orações de paz. Para Deus, a mais bela obrigação é nossa paz, nossa concórdia, a unidade no Pai, no Filho e no Espírito Santo de todo o povo fiel.




[Do Catecismo da Igreja Católica: A Oração do Senhor: sexto pedido “Não nos deixeis cair em tentação” 2846-2849 – Texto 20]

         Este pedido atinge a raiz do precedente, pois nossos pecados são fruto do consentimento na tentação. Nós pedimos a Deus que não nos deixe enveredar pelo caminho que conduz ao pecado. Estamos empenhados no combate “entre a carne e o Espírito”, e este pedido implora o Espírito de discernimento e de fortaleza.
         O Espírito Santo nos faz discernir entre a provação, necessária ao crescimento do homem interior, e a tentação, que leva ao pecado e à morte. Também temos que discernir entre “ser tentado” e “consentir” na tentação.
         “Não cair em tentação” envolve uma decisão do coração: “Onde está o teu tesouro, aí estará também teu coração... Ninguém pode servir a dois senhores” (Mt 6, 21.24). Em nosso “consentimento” ao Espírito, o Pai nos dá a força. “Deus é fiel; não permitirá que sejais tentados acima de vossas forças. Mas, com a tentação, Ele vos dará os meios de sair dela e a força para suportá-la” (1Cor 10,13).
         Tal combate e tal vitória não são possíveis senão na oração. Foi por sua oração que Jesus venceu o tentador, desde o começo e no último combate de sua agonia. É, portanto, a seu combate e à sua agonia que Cristo nos une neste pedido a nosso Pai.
         A vigilância do coração é lembrada com insistência, ela consiste em “guardar o coração”, e Jesus pede ao Pai que “nos guarde em seu nome”. Esse pedido adquire todo seu sentido dramático no contexto da tentação final de nosso combate na terra; pede a perseverança final. “Eis que venho como um ladrão: feliz aquele que vigia.” (Ap 16,15)



[Do Catecismo da Igreja Católica: A Oração do Senhor: sétimo pedido “Mas livrai-nos do mal” 2850-2856 – Texto 21]

         O último pedido ao nosso Pai aparece também na oração de Jesus: “Não te peço que os tires do mundo, mas que os guardes do Maligno” (Jo 17,15). A oração do Senhor não cessa de abrir-nos para as dimensões da economia da salvação. Nossa interdependência no drama do pecado e da morte se transforma em solidariedade no Corpo de Cristo, na “comunhão dos santos”.
         Neste pedido, o Mal não é uma abstração, mas designa uma pessoa, Satanás, o Maligno. O “diabo” é aquele que “se atira no meio” do plano de Deus e de sua “obra de salvação”. “Homicida desde o princípio, mentiroso e pai da mentira” (Jo 8,44), foi por ele que o pecado e a morte entraram no mundo e é por sua derrota definitiva que a criação toda será “liberta da corrupção do pecado e da morte”. “Nós sabemos que somos de Deus e que o mundo inteiro está sob o poder do Maligno” (1Jo 5,18-19).
         “O Senhor que arrancou vosso pecado e perdoou vossas faltas, tem poder para vos proteger e vos guardar contra os ardis do Diabo que vos combate, a fim de que o inimigo, que costuma engendrar a falta, não vos surpreenda. Quem se entrega a Deus não teme o Demônio. “Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Rm 8,31) [Santo Ambrósio]
         A vitória sobre o “príncipe deste mundo” foi alcançada na Hora em que Jesus se entregou livremente à morte para nos dar sua vida. Por isso o Espírito e a Igreja rezam: “Vem, Senhor Jesus” (Ap 22,17-20), porque sua Vinda nos livrará do Maligno.
Ao pedir que nos livre do Maligno, pedimos igualmente que sejamos libertados de todos os males, presentes, passados e futuros. Neste pedido a Igreja traz toda a miséria do mundo  diante do Pai, ela implora o dom precioso da paz e a graça de esperar perseverantemente o retorno de Cristo “o Todo-poderoso, Aquele que é, Aquele que era e Aquele que vem” (Ap. 1,8).
“Em seguida, terminada a oração, tu dizes ‘Amém’ (exprimimos o nosso fiat em relação aos sete pedidos), corroborando por este Amém, que significa ‘Que isto se faça’, tudo quanto está contido na oração que Deus nos ensinou.” (São Cirilo de Jerusalém).