Meditação

MEDITAÇÃO CRISTÃ


1.  Aproveitamos o ensejo do início do ano de 2011, para retomarmos nossa atividade de MEDITAÇÃO CRISTÃ, aqui no MOSTEIRO DE SÃO BENTO.  Vamos lembrar àqueles que já estão nessa atividade, como àqueles que desejam conhecê-la, como a praticamos e quais são as exigências básicas.

Para não nos alongarmos no tema, (porque é muito vasto), fiquemos, apenas, com alguns conceitos necessários, mais voltados aos iniciantes.

A Meditação Cristã, no ocidente, não tem larga tradição ainda, mas vem crescendo de forma muito acentuada.   Aqui no Brasil, principalmente, em São Paulo e Rio de Janeiro, já é bastante praticada por inúmeros grupos.

Não se adotou, no ocidente, a mesma forma milenar de meditação praticada pelos orientais; mas dela também não está, de todo, dissociada.

Na verdade, a prática da Meditação Cristã, no ocidente, se torna difundida por D.John Main, (que era monge beneditino).

Tendo ele observado os Hindus, em sua forma de meditar, praticou e adaptou essa fórmula a uma maneira ocidental de Meditar.

Observou que os Hindus ao meditar, se aquietavam e repetiam silenciosa e constantemente um Mantra.  Para nosso observador relatavam experiências extraordinárias, sentidas e provadas, diferenciadas de tudo que nós cristãos ocidentais estávamos acostumados, com a prática da oração comum.

Nosso monge terminou por com eles praticar e absorver a meditação, apreendendo os seus meandros.

Então, com a experiência adquirida, entendeu que a prática meditativa poderia ser praticada e desenvolvida pelos cristãos.    No Mosteiro a que pertencia, John Main foi proibido de praticar aquela forma de oração silenciosa.  Obedeceu ao seu Abba.  Mas nem por isso se esqueceu do que havia apreendido.

Foi buscar e encontrou em João Cassiano, (Eremita Egípcio do séc. IV), especialmente nas obras, (Conferências IX e X e Instituições), o nexo que procurava para a oração meditativa ocidental.  Pois ali, o Monge Cassiano encontra, com firmeza, o “modus” e a eficiências da oração silenciosa, que a chamamos de meditativa ou contemplativa - meditação cristã.

Conectado ao elo da oração, proposta pelo Abba Isaac, (retratado na Conferência X de João Cassiano), John Main passou a difundir a Meditação Cristã no Ocidente, e que chega até nós, por ele e vários outros autores que já discorreram sobre o assunto.


Como monge beneditino que era, por certo encontrou também, na Regra de São Bento, apoio ao seu intento de meditar ou “busca da perfeição – conduta interior”, nessa oração silenciosa.  Pois São Bento, em sua Regra, não descuidou dos ensinamentos trazidos pelo monaquismo egípcio, que teve como mensageiro para o ocidente o próprio João Cassiano, entre outros monges da época.   Observa-se, na Regra de S. Bento, essa assimilação da oração proposta e retratada por João Cassiano: oração silenciosa, contemplativa de Deus e constante em nosso dia a dia.



2.-   Em que Consiste a oração silenciosa  ou meditação cristã?
                                                          
Em princípio, podemos afirmar que a prática da meditação cristã não tem qualquer dificuldade.  Trata-se de uma forma bem simples de oração, porque não exige do meditante que teça grandes elucubrações sobre o que está fazendo.

Há um método difundido, o qual adotamos, que consistente no seguinte:

- sentar-se com a coluna reta, mas de forma confortável;
- as mãos podem repousar em cima das pernas;
- fechar levemente os olhos;
- respirar profunda e lentamente, por umas 07 vezes, até sentir-se tranqüilo e a respiração pacificada;
- esvaziar a mente, deixá-la tranqüila sem em nada pensar, livre de preocupações e ansiedades;
- não se esforçar para formar imagens de qualquer coisa. Se elas vierem à mente, deixá-las passar, qual nuvem que no céu que se desfaz rapidamente;
- repetir do inicio ao fim da meditação, um Mantra;

(Esse mantra pode consistir em palavras ou frases curtas, mas sempre centrada em CRISTO).

Não impomos mantra: Mas sugerimos a palavra MA-RA-NA-THA, pronunciada, em quatro tempos.  Esta palavra foi repetida por Jesus Cristo, em Aramaico, quando orava. Significa: “Vinde Pai”. Deve-se fazer tal oração por 20 a 30 minutos, duas vezes ao dia, sem interrupções.

Pode se pronunciar a palavra ABBA, como mantra, que significa Pai, Paizinho. Ou ainda: “Vinde Senhor”.

A preferência pela palavra MARANATHA deve-se ao fato imediato de não ser ela associável a qualquer imagem, cena ou outra coisa que conheçamos.   E isto é muito bom para o meditante, pois que tem que esvaziar sua mente de qualquer coisa, deixando-a livre, para poder, assim, alcançar maior proveito na interiorização de sua oração. O objetivo mesmo da meditação é interiorizar a oração.

Na realidade, toda oração, para ser “perfeita”, (isso não se alcança facilmente), deve ser interiorizada pelo orante.  E para que isto ocorra, deve o fiel colocar todo o seu coração, todo o seu espírito, todo o seu silêncio interior, toda a sua quietude, nesse mister de  orar.   Tudo isto, de forma natural, sem assolar sua alma com preocupações quaisquer.    O meditante deve estar livre, quieto, silencioso e desejoso de orar, disposto mesmo a fazer aquilo para o qual seu espírito e seu coração se propõem.

João Cassiano, em sua Conferência X, cita o Abba Issac falando sobre a oração silenciosa que assim diz:


“Proponho-vos, pois, esse modelo de disciplina e de oração que procurais, que todo monge cujo escopo consiste na lembrança continua de Deus dever ter por hábito meditá-lo ininterruptamente. Para atingir tal meta, urge antes, que expulseis de vosso espírito todos os outros pensamentos, pois não podereis aplicar-vos a  este modelo se não vos tiverdes  libertado de todas as preocupações e solicitudes corporais.  ......para que  tenhais a permanente lembrança de Deus, essa fórmula de verdadeira piedade:    Ó Deus, vinde em meu  auxílio, Senhor apressai-vos em socorrer-me! (Sl 69,2).

De qualquer maneira, seja qual for a palavra que se escolha para orar e repetir, DEVE SER FEITA TRANQUILA E COMPASSADAMENTE, SEM INTERRUPÇÕES, ATÉ O FINAL DA MEDITAÇÃO, EM LUGAR SEM MUITO BARULHO.

O intuito e o objetivo da Meditação Cristã é primeiro, querer o fiel e desejar entregar-se a Deus; para isso deve entrar numa disciplina orante.  E sem essa disciplina, não conseguiremos avançar no estágio de silêncio que necessitamos, PARA FAZER UMA ENTREGA PERFEITA DE NOSSA ORAÇÃO A DEUS.   Não podemos qualificar isto de dificuldade. Daí ser a Meditação Cristã uma forma de oração simples, capaz de ser praticada por qualquer pessoa, em qualquer lugar.
Dizem alguns autores, que quando fazemos essa oração silenciosa, não somos nós que vamos a Deus. É DEUS QUE VEM ORAR CONOSCO.


Devemos, também, nos empenhar no conhecimento da Palavra de Deus, (a Sagrada Escritura, seus Evangelhos, seus Salmos, seus Livros), sem o que também não avançaremos na fé, na esperança e na caridade, elementos imprescindíveis para uma vida que liberta e que eleva o homem ao encontro com seu Salvador.

Com o tempo, a oração torna-se incessante e prazerosa.  Isto porque no início, temos a impressão de que estamos falando ao nada.  Mas o espírito sábio não se desespera. Espera e confia em Deus, que sempre lhe proverá de todas as suas necessidades, inclusive da certeza de que suas orações estão sendo ouvidas.

Persistência, disciplina e repetição do mantra, são, pois, palavras inseridas nesse vocabulário da meditação cristã.

Para o monge João Cassiano a meditação ou contemplação, como chama a oração do coração, “é um oração estática, ou seja, só pode ser verdadeiramente rezada, por aquele que esqueceu, transcendeu as preocupações egoístas. É oração estática, porque emerge da boca e do coração de uma alma desfeitas e abismada de amor “...



3. Para aqueles que desejam sabe mais sobre o tema, indicamos algumas leituras que podem ser feitas.   Algumas são elementares (*). Outras mais elevadas (**) e que demandarão mais empenho em sua leitura e compreensão.  Mas todas igualmente  proveitosas.

1.- * A Nuvem do Não Saber-  Autor anônimo do Séc. XIV (Ed. Vozes)
2.- * Da Oração – João Cassiano Ed. Vozes
3.-  **A Palavra que leva ao Silencio ( John Main – Ed. Paulus)
4.-   ** O Momento de Cristo – (John Main Ed. Paulus)
5.     **Meditação Cristã – Idem
6.    **João Cassiano Conferências de VIII a XV  (2 volumes)- Mosteiro da Santa     Cruz -J. Fora-  Rua Prof. Coelho e Souza, 95  - CEP 35016-110 Juiz de Fora- MG (Fones 0**32 (32158738)  0** 32 – (32162814).
7.    ** Obras de Santa Thereza D’Avila – Caminho de Perfeição, Vida,  Fundações , Castelo Interior. (Ed. Loyola);
8.-    * A Arte da Meditação – Bradford Smit – Ed. Forense
9-     *Padres do Deserto, Homens Embriagados de Deus – - Jaques Lacarrière -  (Ed.Loyola)
10.- * A Procura de Deus – Esther de Waal ( Ed. Mosteiro da Santa Cruz- Juiz de Fora);

Maria Vanda A. Silva
(Ir. Maria Silvia – Oblata OSB)

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