ANUNCIAR O EVANGELHO NO ESPÍRITO SANTO
Dabar e Ruach: Palavra e Espírito (1ª parte)
Pe. Raniero Cantalamessa*
[Algumas reflexões teológicas sobre o papel do Espírito Santo no anúncio]
Após haver mencionado o conteúdo da pregação cristã, isto é, o anúncio de Cristo no contexto cultural de hoje, pasamos agora a comentar o método a ser aplicado, o qual, como diz a Escritura, consiste essencialmente em anunciar Cristo “em virtude do Espírito Santo” (1Pd 1,12).
Se eu quiser propagar uma notícia, o primeiro problema que se apresenta é: com que meio transmiti-la: via imprensa? Via rádio? Via televisão? O meio é tão importante que a moderna ciência das comunicações sociais cunhou o seguinte pensamento: “o meio é a mensagem” (“The médium is the message”, Marshall McLuhan).
Ora, qual é o meio primordial e natural com que se transmite a palavra? É o sopro, a respiração, a voz. Ele toma, por assim dizer, a palavra que se transformou no segredo da minha mente, levando-a até aquele que escuta. Todos os outros meios não fazem outra coisa senão potencializar e amplificar esta primeira metade do sopro ou da voz. Também a escrita vem depois e supõe a viva voz, uma vez que as letras do alfabeto não são senão sinais indicativos dos sons.
A Palavra de Deus também segue esta lei. Ela é transmitida por meio de um sopro, de um bafejo. E qual é ou quem é o sopro, ou a ruach de Deus, segundo a Bíblia? Nós o sabemos: é o Espírito Santo! Pode o meu sopro animar a vossa palavra ou o vosso sopro animar a minha palavra? Não, a minha palavra não pode ser pronunciada senão com o meu sopro e a vossa palavra, com o vosso sopro. Assim, entenda-se que se trata de uma analogia, a Palavra de Deus não pode ser animada senão pelo sopro de Deus, que é o Espírito Santo.
Esta é uma verdade simplíssima e quase óbvia, porém de importância imensa. É a lei fundamental de todo anúncio e de toda evangelização. As notícias humanas são transmitidas ou por viva voz, ou via rádio, via cabo, via satélite etc.; a notícia divina, enquanto divina, é transmitida via Espírito Santo. Este é seu verdadeiro e essencial meio de comunicação, sem o qual não se percebe da mensagem senão o revestimento humano. As palavras de Deus são “Espírito e vida” (cf. Jo 6,63) e, portanto, não podem ser transmitidas ou acolhidas a não ser “no Espírito”.
Esta lei fundamental é aquele que vemos também em ação, concretamente, na história da salvação. Jesus começou a pregar “com a força do Espírito” (Lc 4,14ss). Ele próprio declarou: “O Espírito do Senhor está sobre mim, pois ele me ungiu, para anunciar a Boa-Nova aos pobres” (Lc 4,18).
Depois da Páscoa, os apóstolos foram exortados por Jesus a não se afastarem de Jerusalém, até que fossem revestidos do poder do alto: “Recebereis o poder do Espírito Santo que virá sobre vós, para serdes minhas testemunhas” (At 1,8). Toda a narrativa do Pentecostes serve para elucidar esta verdade. Vem o Espírito Santo e eis que Pedro e os outros apóstolos, levantando a voz, começam a falar de Cristo crucificado e ressurgido, e sua palavra tem tal poder que cerca de três mil pessoas sentiram o coração compungido. O Espírito Santo desceu sobre os apóstolos, transformando-se, neles, em um impulso irresistível para evangelizar.
São Paulo chega a afirmar que sem o Espírito Santo é impossível até proclamar que “Jesus é Senhor”, que é a forma mais elementar e mesmo o início de todo anúncio cristão (cf. 1Cor 12,3).
Ninguém, entretanto, poderá jamais exprimir a ligação íntima existente entre evangelização e Espírito Santo melhor do que o fez o próprio Jesus ao anoitecer, na Páscoa. Aparecendo aos apóstolos no cenáculo, disse Ele: “‘Como o Pai me enviou também eu vos envio’. Então, soprou sobre eles e falou: ‘Recebei o Espírito Santo’” (Jo 20,21-22). Ao conferir aos apóstolos a missão de ir a todo o mundo, Jesus concedeu-lhes o meio para poder cumpri-lo e, significativamente, o sinal do sopro, do hálito.
Esta ligação íntima entre palavra (o dabar) e sopro ou espírito (ruach) é perceptível de um capítulo a outro da Bíblia, onde “espírito” é feminino e “palavra” é masculino! São as duas grandes forças que, juntas, criam e movimentam o mundo: “Pela palavra do Senhor foram feitos os céus, pelo sopro de sua boca tudo quanto os enfeita” (Sl 33,6). “Castigará o opressor com a vara que é sua boca, matará esse criminoso com o sopro dos seus lábios” (Is 11,4). Ora os profetas são vistos como os homens da palavra, ora como os homens do Espírito. Ora é a palavra que “vem” sobre eles e os constitui profetas, ora é o “Espírito do Senhor” (Is 61,1) que assume a própria atribuição. “O meu espírito que está em ti e minhas palavras que pus em teus lábios, de teus lábios jamais se afastarão” (Is 59,21).
Existe uma reciprocidade perfeita entre as duas realidades que têm suas raízes remotas na própria Trindade. O Espírito procede “através” do filho, mas também o Filho é gerado “no” Espírito. Na revelação, o Espírito nos doa a palavra (com efeito, “foi sob o impulso do Espírito Santo que pessoas humanas falaram da parte de Deus”, 2Pd 1,21); ademais, é esta mesma palavra, a Escritura, que, quando lida com fé, dá o Espírito Santo. Na redenção, novamente esse mesmo processo circular: no momento da encarnação, o Espírito Santo nos dá a Palavra de Deus vivente, que é Jesus, “concebido por obra do Espírito Santo”; no mistério pascal, é a Palavra que se fez carne que, da cruz, derrama o Espírito Santo sobre a Igreja.
*É pregador da Casa Pontifícia e o texto aqui apresentado é a primeira parte de um artigo publicado no livro O Mistério da Palavra de Deus, escrito pelo Pe. Raniero.
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