ANUNCIAR O EVANGELHO NO ESPÍRITO SANTO
A Oração e a Retidão de Intenção: meios para se obter o Espírito Santo em nossa evangelização (2ª parte)
Pe. Raniero Cantalamessa*
[Algumas reflexões sobre como nos revestirmos do poder do Espírito Santo por meio da Oração]
Depois de apresentar algumas reflexões teológicas sobre o papel do Espírito Santo no anúncio, agora quero me empenhar em desenvolver um segundo ponto: o que fazer, concretamente, para obter o Espírito Santo em nossa evangelização; como fazer para sermos, também nós, revestidos do poder do alto, como em um “novo Pentecostes”.
Irei destacar dois meios que considero essenciais para esta finalidade: oração e retidão de intenção. O que digo se aplica a toda forma de serviço da palavra e, por isso, interpela todos, mesmo aquele que não estiver empenhado no anúncio em sentido estrito.
É simples saber como receber o Espírito Santo na pregação. Basta ver como Jesus, e a própria Igreja no dia de Pentecostes, o obtém. Lucas assim descreve o evento do batismo de Jesus: “Enquanto todo o povo era batizado e Jesus, batizado, estava em oração, o céu se abriu e o Espírito Santo desceu sobre ele” (Lc 3,21-22). “Enquanto estava em oração”: provavelmente, para Lucas, foi a oração de Jesus que rompeu os céus e fez descer o Espírito Santo.
Pouco além, no mesmo Evangelho de Lucas, lemos: “As multidões acorriam para ouvi-lo e para serem curadas de suas doenças. Ele, porém, se retirava para lugares desertos, onde se entregava à oração” (Lc 5,15-16). Aquele “porém” adversativo é muito convincente; cria um impressionante contraste entre as multidões que pressionam e a decisão de Jesus de não se deixar arrastar por elas, renunciando a seu diálogo com o Pai.
Se agora nos voltarmos para a Igreja por Jesus, observamos a mesma coisa. No Pentecostes, o Espírito Santo veio sobre os apóstolos enquanto estes “perseveravam na oração em comum” (At 1,14). A única coisa que podemos fazer nas confrontações com o Espírito Santo, o único poder que temos sobre Ele, é o de invocá-lo e rezar. Não há outros meios. Todavia, este meio “débil” da oração e da invocação é, na realidade, infalível: “Quanto mais o Pai do céu saberá dar o Espírito Santo aos que lhe pedirem!” (Lc 11,13). Deus vinculou-se a dar o Espírito Santo a quem reza.
Ao lado da oração pessoal, faz-se necessária também a da comunidade inteira. A Palavra de Deus ama vir sobre o anunciador enquanto este está em oração com uma comunidade. Não há dom mais precioso para um anunciador ou um pastor de almas do que ter em torno de si um grupo de pessoas com as quais possa orar em simplicidade, como irmãos entre irmãos, independente do grau de hierarquia, como se encontravam os apóstolos com as mulheres e os discípulos no cenáculo, antes da saída pelas estradas de Jerusalém. Depois, diante do povo, os apóstolos reassumem suas vestes de apóstolos e sua autoridade.
No capítulo 4 dos Atos, é possível perceber como a comunidade em oração, pela força dos carismas que nela se manifestam, dá novo ânimo aos apóstolos Pedro e João, ameaçados pelo sinédrio e inseguros sobre o que fazer, de tal modo que eles retomam o que faziam para anunciar corajosamente (parrhesia) o Cristo.
O anúncio está exposto a dois perigos principais. Um é a inércia, a preguiça, o não fazer nada e deixar que os outros façam tudo. O outro consiste em lançar-se em um ativismo humano febril e vazio, com o risco de ter como resultado a perda, pouco a pouco, do contato com a fonte da palavra e da sua eficácia. Esta seria também uma maneira de transformar a falência. Quanto maior o volume da evangelização e da atividade, maior o volume da oração.
Argumenta-se: isto é absurdo; o tempo é aquilo que é! Concordo, mas quem multiplicou os pães não poderá talvez multiplicar também o tempo? Afinal, é o que Deus faz continuamente e o que realizamos como experiência todos os dias. Depois de haver rezado, fazem-se as mesmas coisas em menos da metade do tempo. Diz-se ainda: mas como permanecer tranquilos rezando e não correr, quando a casa está em chamas? Também isso é verdade. Imaginemos, porém, o que aconteceria a uma equipe de bombeiros que estivesse tentando extinguir um incêndio e, no momento mais importante, percebessem que não havia sequer uma gota de água nos reservatórios. Isso acontece conosco quando corremos para fazer pregação sem rezar. Não significa que faltem palavras; ao contrário, quanto menos se reza, mais se fala, mas são palavras vazias, que não transpassam o coração de ninguém.
A evangelização tem necessidade vital de autêntico espírito profético. Somente uma evangelização profética pode abalar o mundo. Lê-se no Apocalipse a seguinte frase: “O testemunho de Jesus é o espírito da profecia” (Ap 19,10). É como dizer: a alma da evangelização (“testemunho de Jesus” equivale à evangelização!) é a profecia. Pois bem, é precisamente pela oração que se alcança este espírito profético.
No entanto, o que ocorre de tão importante na oração, a ponto de se obter com ela o Espírito Santo? Pelo simples fato de se colocar em oração, o homem se submete a Deus, põe-se em atitude de obediência e de abertura em suas confrontações; “reconhece o poder de Deus” (cf. Sl 68,35). Deus não pode revestir-se com sua autoridade, exceto aqueles que aceitam sua vontade. Se assim não fosse, seria magia, e não profecia.
Deus – dizia o apóstolo Pedro, para explicar a incredulidade dos chefes do sinédrio – dá o Espírito Santo “àqueles que lhe obedecem” (cf. At 5,32). Ele o dá aos obedientes. É preciso morrer para si mesmo, deixar-se como que dilacerar o coração, para acolher por inteiro a vontade do Pai, que é muito maior e diferente da nossa. Estou convencido de que houve muitas noites de Getsêmani na vida de Jesus, e não apenas uma. Nelas, Ele lutava com Deus, mas não para que Deus se dobrasse à sua vontade, como fazia Jacó em sua luta com Ele, mas para dobrar sua vontade humana a Deus e dizer, diante de toda nova dificuldade e exigência: “Fiat, sim”.
Depois de tais noites, Jesus voltava a pregar às multidões, e estas diziam, cheias de pasmo: “Fala com autoridade! De onde lhe vem toda esta autoridade?” (cf. Lc 4,31-36). É evidente que falava com autoridade. De fato, falava com a autoridade mesma de Deus, pois, quando alguém se rende completamente a Ele, então, misteriosamente, Deus se rende a esse alguém e confia-lhe seu Espírito e seu poder, do qual sabe que não fará mau uso para si ou para a sua glória, ou para subjugar os irmãos. Sucede, então, que as palavras que Ele pronuncia traspassam o coração. Ele próprio experimenta uma autoridade que não vem dele.
*É pregador da Casa Pontifícia e o texto aqui apresentado é a segunda parte de um artigo publicado no livro O Mistério da Palavra de Deus, escrito pelo Pe. Raniero.

