MENSAGEM DE SUA SANTIDADE PAPA BENTO XVI PARA A QUARESMA DE 2012 «Prestemos atenção uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras» (Hebreus 10, 24) Irmãos e irmãs! A Quaresma oferece-nos a oportunidade de refletir mais uma vez sobre o cerne da vida cristã: o amor. Com efeito este é um tempo propício para renovarmos, com a ajuda da Palavra de Deus e dos Sacramentos, o nosso caminho pessoal e comunitário de fé. Trata-se de um percurso marcado pela oração e a partilha, pelo silêncio e o jejum, com a esperança de viver a alegria pascal. Desejo, este ano, propor alguns pensamentos inspirados num breve texto bíblico tirado da Carta aos Hebreus: «Prestemos atenção uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras» (10, 24). Esta frase aparece inserida numa passagem onde o escritor sagrado exorta a ter confiança em Jesus Cristo como Sumo Sacerdote, que nos obteve o perdão e o acesso a Deus. O fruto do acolhimento de Cristo é uma vida edificada segundo as três virtudes teologais: trata-se de nos aproximarmos do Senhor «com um coração sincero, com a plena segurança da fé» (v. 22), de conservarmos firmemente «a profissão da nossa esperança» (v. 23), numa solicitude constante por praticar, juntamente com os irmãos, «o amor e as boas obras» (v. 24). Na passagem em questão afirma-se também que é importante, para apoiar esta conduta evangélica, participar nos encontros litúrgicos e na oração da comunidade, com os olhos fixos na meta escatológica: a plena comunhão em Deus (v. 25). Detenho-me no versículo 24, que, em poucas palavras, oferece um ensinamento precioso e sempre atual sobre três aspectos da vida cristã: prestar atenção ao outro, a reciprocidade e a santidade pessoal. 1. «Prestemos atenção»: a responsabilidade pelo irmão O primeiro elemento é o convite a «prestar atenção»: o verbo grego usado é katanoein, que significa observar bem, estar atento, olhar conscienciosamente, dar-se conta de uma realidade. Encontramo-lo no Evangelho, quando Jesus convida os discípulos a «observar» as aves do céu, que não se preocupam com o alimento e todavia são objeto de solícita e cuidadosa Providência divina (cf. Lc 12, 24), e a «dar-se conta» da trave que têm na própria vista antes de reparar no argueiro que está na vista do irmão (cf. Lc 6, 41). Encontramos o referido verbo também noutro trecho da mesma Carta aos Hebreus, quando convida a «considerar Jesus» (3, 1) como o Apóstolo e o Sumo Sacerdote da nossa fé. Por conseguinte o verbo, que aparece na abertura da nossa exortação, convida a fixar o olhar no outro, a começar por Jesus, e a estar atento uns aos outros, a não se mostrar alheio e indiferente ao destino dos irmãos. Mas, com frequência, prevalece a atitude contrária: a indiferença, o desinteresse, que nascem do egoísmo, mascarado por uma aparência de respeito pela «esfera privada». Também hoje ressoa, com vigor, a voz do Senhor que chama cada um de nós a cuidar do outro. Também hoje Deus nos pede para sermos o «guarda» dos nossos irmãos (cf. Gn 4, 9), para estabelecermos relações caracterizadas por recíproca solicitude, pela atenção ao bem do outro e a todo o seu bem. O grande mandamento do amor ao próximo exige e incita a consciência a sentir-se responsável por quem, como eu, é criatura e filho de Deus: o fato de sermos irmãos em humanidade e, em muitos casos, também na fé deve levar-nos a ver no outro um verdadeiro alter ego, infinitamente amado pelo Senhor. Se cultivarmos este olhar de fraternidade, brotarão naturalmente do nosso coração a solidariedade, a justiça, bem como a misericórdia e a compaixão. O Servo de Deus Paulo VI afirmava que o mundo atual sofre sobretudo de falta de fraternidade: «O mundo está doente. O seu mal reside mais na crise de fraternidade entre os homens e entre os povos, do que na esterilização ou no monopólio, que alguns fazem, dos recursos do universo» (Carta enc. Populorum progressio, 66). A atenção ao outro inclui que se deseje, para ele ou para ela, o bem sob todos os seus aspectos: físico, moral e espiritual. Parece que a cultura contemporânea perdeu o sentido do bem e do mal, sendo necessário reafirmar com vigor que o bem existe e vence, porque Deus é «bom e faz o bem» (Sal 119/118, 68). O bem é aquilo que suscita, protege e promove a vida, a fraternidade e a comunhão. Assim a responsabilidade pelo próximo significa querer e favorecer o bem do outro, desejando que também ele se abra à lógica do bem; interessar-se pelo irmão quer dizer abrir os olhos às suas necessidades. A Sagrada Escritura adverte contra o perigo de ter o coração endurecido por uma espécie de «anestesia espiritual», que nos torna cegos aos sofrimentos alheios. O evangelista Lucas narra duas parábolas de Jesus, nas quais são indicados dois exemplos desta situação que se pode criar no coração do homem. Na parábola do bom Samaritano, o sacerdote e o levita, com indiferença, «passam ao largo» do homem assaltado e espancado pelos salteadores (cf. Lc 10, 30-32), e, na do rico avarento, um homem saciado de bens não se dá conta da condição do pobre Lázaro que morre de fome à sua porta (cf. Lc 16, 19). Em ambos os casos, deparamo-nos com o contrário de «prestar atenção», de olhar com amor e compaixão. O que é que impede este olhar feito de humanidade e de carinho pelo irmão? Com frequência, é a riqueza material e a saciedade, mas pode ser também o antepor a tudo os nossos interesses e preocupações próprias. Sempre devemos ser capazes de «ter misericórdia» por quem sofre; o nosso coração nunca deve estar tão absorvido pelas nossas coisas e problemas que fique surdo ao brado do pobre. Diversamente, a humildade de coração e a experiência pessoal do sofrimento podem, precisamente, revelar-se fonte de um despertar interior para a compaixão e a empatia: «O justo conhece a causa dos pobres, porém o ímpio não o compreende» (Prov 29, 7). Deste modo entende-se a bem-aventurança «dos que choram» (Mt 5, 4), isto é, de quantos são capazes de sair de si mesmos porque se comoveram com o sofrimento alheio. O encontro com o outro e a abertura do coração às suas necessidades são ocasião de salvação e de bem-aventurança. O fato de «prestar atenção» ao irmão inclui, igualmente, a solicitude pelo seu bem espiritual. E aqui desejo recordar um aspecto da vida cristã que me parece esquecido: a correção fraterna, tendo em vista a salvação eterna. De forma geral, hoje é-se muito sensível ao tema do cuidado e do amor que visa o bem físico e material dos outros, mas quase não se fala da responsabilidade espiritual pelos irmãos. Na Igreja dos primeiros tempos não era assim, como não o é nas comunidades verdadeiramente maduras na fé, nas quais se tem a peito não só a saúde corporal do irmão, mas também a da sua alma tendo em vista o seu destino derradeiro. Lemos na Sagrada Escritura: «Repreende o sábio e ele te amará. Dá conselhos ao sábio e ele tornar-se-á ainda mais sábio, ensina o justo e ele aumentará o seu saber» (Prov 9, 8-9). O próprio Cristo manda repreender o irmão que cometeu um pecado (cf. Mt 18, 15). O verbo usado para exprimir a correção fraterna – elenchein – é o mesmo que indica a missão profética, própria dos cristãos, de denunciar uma geração que se faz condescendente com o mal (cf. Ef 5, 11). A tradição da Igreja enumera entre as obras espirituais de misericórdia a de «corrigir os que erram». É importante recuperar esta dimensão do amor cristão. Não devemos ficar calados diante do mal. Penso aqui na atitude daqueles cristãos que preferem, por respeito humano ou mera comodidade, adequar-se à mentalidade comum em vez de alertar os próprios irmãos contra modos de pensar e agir que contradizem a verdade e não seguem o caminho do bem. Entretanto a advertência cristã nunca há-de ser animada por espírito de condenação ou censura; é sempre movida pelo amor e a misericórdia e brota duma verdadeira solicitude pelo bem do irmão. Diz o apóstolo Paulo: «Se porventura um homem for surpreendido nalguma falta, vós, que sois espirituais, corrigi essa pessoa com espírito de mansidão, e tu olha para ti próprio, não estejas também tu a ser tentado» (Gl 6, 1). Neste nosso mundo impregnado de individualismo, é necessário redescobrir a importância da correção fraterna, para caminharmos juntos para a santidade. É que «sete vezes cai o justo» (Prov 24, 16) – diz a Escritura –, e todos nós somos frágeis e imperfeitos (cf. 1 Jo 1, 8). Por isso, é um grande serviço ajudar, e deixar-se ajudar, a ler com verdade dentro de si mesmo, para melhorar a própria vida e seguir mais retamente o caminho do Senhor. Há sempre necessidade de um olhar que ama e corrige, que conhece e reconhece, que discerne e perdoa (cf. Lc 22, 61), como fez, e faz, Deus com cada um de nós. 2. «Uns aos outros»: o dom da reciprocidade O fato de sermos o «guarda» dos outros contrasta com uma mentalidade que, reduzindo a vida unicamente à dimensão terrena, deixa de considerá-la na sua perspectiva escatológica e aceita qualquer opção moral em nome da liberdade individual. Uma sociedade como a atual pode tornar-se surda quer aos sofrimentos físicos, quer às exigências espirituais e morais da vida. Não deve ser assim na comunidade cristã! O apóstolo Paulo convida a procurar o que «leva à paz e à edificação mútua» (Rm 14, 19), favorecendo o «próximo no bem, em ordem à construção da comunidade» (Rm 15, 2), sem buscar «o próprio interesse, mas o do maior número, a fim de que eles sejam salvos» (1 Cor 10, 33). Esta recíproca correção e exortação, em espírito de humildade e de amor, deve fazer parte da vida da comunidade cristã. Os discípulos do Senhor, unidos a Cristo através da Eucaristia, vivem numa comunhão que os liga uns aos outros como membros de um só corpo. Isto significa que o outro me pertence: a sua vida, a sua salvação têm a ver com a minha vida e a minha salvação. Tocamos aqui um elemento muito profundo da comunhão: a nossa existência está ligada com a dos outros, quer no bem quer no mal; tanto o pecado como as obras de amor possuem também uma dimensão social. Na Igreja, corpo místico de Cristo, verifica-se esta reciprocidade: a comunidade não cessa de fazer penitência e implorar perdão para os pecados dos seus filhos, mas alegra-se contínua e jubilosamente também com os testemunhos de virtude e de amor que nela se manifestam. Que «os membros tenham a mesma solicitude uns para com os outros» (1 Cor 12, 25) – afirma São Paulo –, porque somos um e o mesmo corpo. O amor pelos irmãos, do qual é expressão a esmola – típica prática quaresmal, juntamente com a oração e o jejum – radica-se nesta pertença comum. Também com a preocupação concreta pelos mais pobres, pode cada cristão expressar a sua participação no único corpo que é a Igreja. E é também atenção aos outros na reciprocidade saber reconhecer o bem que o Senhor faz neles e agradecer com eles pelos prodígios da graça que Deus, bom e omnipotente, continua a realizar nos seus filhos. Quando um cristão vislumbra no outro a ação do Espírito Santo, não pode deixar de se alegrar e dar glória ao Pai celeste (cf. Mt 5, 16). 3. «Para nos estimularmos ao amor e às boas obras»: caminhar juntos na santidade Esta afirmação da Carta aos Hebreus (10, 24) impele-nos a considerar a vocação universal à santidade como o caminho constante na vida espiritual, a aspirar aos carismas mais elevados e a um amor cada vez mais alto e fecundo (cf. 1 Cor 12, 31 – 13, 13). A atenção recíproca tem como finalidade estimular-se, mutuamente, a um amor efetivo sempre maior, «como a luz da aurora, que cresce até ao romper do dia» (Prov 4, 18), à espera de viver o dia sem ocaso em Deus. O tempo, que nos é concedido na nossa vida, é precioso para descobrir e realizar as boas obras, no amor de Deus. Assim a própria Igreja cresce e se desenvolve para chegar à plena maturidade de Cristo (cf. Ef 4, 13). É nesta perspectiva dinâmica de crescimento que se situa a nossa exortação a estimular-nos reciprocamente para chegar à plenitude do amor e das boas obras. Infelizmente, está sempre presente a tentação da tibieza, de sufocar o Espírito, da recusa de «pôr a render os talentos» que nos foram dados para bem nosso e dos outros (cf. Mt 25, 24-28). Todos recebemos riquezas espirituais ou materiais úteis para a realização do plano divino, para o bem da Igreja e para a nossa salvação pessoal (cf. Lc 12, 21; 1 Tm 6, 18). Os mestres espirituais lembram que, na vida de fé, quem não avança, recua. Queridos irmãos e irmãs, acolhamos o convite, sempre atual, para tendermos à «medida alta da vida cristã» (João Paulo II, Carta ap. Novo millennio ineunte, 31). A Igreja, na sua sabedoria, ao reconhecer e proclamar a bem-aventurança e a santidade de alguns cristãos exemplares, tem como finalidade também suscitar o desejo de imitar as suas virtudes. São Paulo exorta: «Adiantai-vos uns aos outros na mútua estima» (Rm 12, 10). Que todos, à vista de um mundo que exige dos cristãos um renovado testemunho de amor e fidelidade ao Senhor, sintam a urgência de esforçar-se por adiantar no amor, no serviço e nas obras boas (cf. Heb 6, 10). Este apelo ressoa particularmente forte neste tempo santo de preparação para a Páscoa. Com votos de uma Quaresma santa e fecunda, confio-vos à intercessão da Bem-aventurada Virgem Maria e, de coração, concedo a todos a Bênção Apostólica. Vaticano, 3 de Novembro de 2011 BENEDICTUS PP. XVI | |
"Ide pelo mundo inteiro e anunciai a Boa Nova a toda a criatura" (Mc 16,15). À imitação do grande Apóstolo das Nações, que ficou transformado depois de ter ouvido a voz do Senhor, escutemos também nós a Palavra divina que não cessa de nos interpelar pessoalmente aqui e agora. (Papa Bento XVI - Exortação Apostólica Pós-Sinodal Verbum Domini)
sábado, 11 de fevereiro de 2012
domingo, 5 de fevereiro de 2012
Cardeal Arcebispo de Washington fala sobre a Nova Evangelização
Gaudium Press – 03/02/2012
Roma (Sexta-feira, 03-02-2012, Gaudium Press) O Cardeal Donald Wuerl, arcebispo de Washington, EUA, é também relator geral do próximo Sínodo sobre a Nova Evangelização, e uma das principais personalidades da Igreja no mundo. Nesta semana a Gaudium Press conversou com ele sobre diversos temas.
Gaudium Press - Sua Eminência foi convidado para fazer parte do Conselho para o próximo Sínodo, como relator geral. Em 16 e 17 de fevereiro haverá no Vaticano a segunda reunião de preparação para a Assembleia. Como vão os trabalhos até agora?
Cardeal Wuerl - Neste momento, o Conselho para o Sínodo, o organismo encarregado de prepará-lo, está trabalhando muito diligentemente no "Instrumentum laboris", o documento de trabalho. Fui convidado a tomar parte em tudo isto. Creio que tudo está caminhando bem e o próximo passo será a publicação do mesmo. Este é o segundo passo, o primeiro passo foi trabalhar os "Lineamenta", a elaboração das ideias para o Sínodo. Muitas das conferências episcopais responderam a ele. E procuramos todo esse material, dele vem um marco de referência para delinear este "Instrumentum Laboris". Quando este for distribuído nós ouviremos a resposta das conferências episcopais sobre ele.
Temos uma ideia bastante boa de qual perspectiva os bispos querem que o Sínodo ofereça para conduzir as discussões. Os bispos trouxeram sua própria perspectiva, porém eles gostariam de ter um ponto de referência que é o reflexo da experiência dos bispos de todo o mundo. Portanto, estamos fazendo progressos.
GP - Para muitas pessoas, a expressão "nova evangelização" pode ser confusa e pouco clara de entender. Qual é a explicação de Sua Eminência para esse termo?
Cardeal Wuerl - Creio que a palavra que para mim é a que melhor o explica é aquela que o Papa Bento XVI pronunciou quando anunciou a criação do novo Conselho Pontifício. Ele disse que temos que aprender a repropor. Nós não refundamos, não recriamos, porque a mensagem do Evangelho já está proclamada. Jesus veio e nos disse que devemos amar a Deus e ao próximo. Esta mensagem nos últimos anos, e especialmente em nossa cultura, para muitas pessoas, de alguma maneira, perdeu seu caráter salvador, perdeu seu poder. Não toca o coração.
A nova evangelização é voltar a propô-lo às pessoas. Voltar a escutar o Evangelho, escutar de novo, e pode ser que você o ouça pela primeira vez corretamente. É isto que Jesus veio oferecer-nos. É o que a Igreja nos oferece hoje em dia. Este viver a continuidade com os Apóstolos e com o Evangelho. Repropor não uma mensagem nova, mas a mesma mensagem, só que agora apresentada em uma nova forma. Nova na forma para as pessoas ouvi-la.
Todos os meios modernos de comunicação hoje em dia estão nesta posição. Nós estávamos acostumados a confiar no catecismo impresso, a confiar nos boletins da Igreja, e agora temos o "Youtube", temos o "Facebook", temos o "Twitter", temos blogs, temos todos estes meios eletrônicos. Nova evangelização significa usar isso para narrar a mesma história.
GP - Como pode a Igreja hoje repropor através dos meios de comunicação sua mensagem Evangélica e o ensinamento dos documentos do Concilio Vaticano II e o Catecismo da Igreja Católica, como sugere o Papa?
Cardeal Wuerl - Existem duas coisas. Uma é assegurar-se de que você tem uma mensagem preciosa, correta e adequada. Porque você tem a mensagem e tem um "invólucro" da mensagem e em seguida você tem a entrega da mensagem. Esses são os três elementos. Para assegurar-se de que se tem a mensagem correta o Papa disse que temos que voltar atrás e refletir sobre o Concílio Vaticano II. Mas, desta vez, refletir sobre ele em uma hermenêutica da continuidade. Refletir sobre ele, já que é a verdade que nos chega dos Apóstolos, que no Concílio Vaticano II os bispos refletiram sobre ela em termos de como aplicar isso aos problemas de hoje. Temos que assegurar que temos a mensagem correta.
Em segundo lugar, como ela está "involucrada", temos que ser capazes de dizer a mensagem na linguagem das pessoas de hoje. Você tem que aprender a falar de uma maneira diferente. Portanto, há uma mensagem, o 'invólucro' e a entrega. Temos que transmitir a mensagem com todos os mecanismos que os jovens estão utilizando hoje. Eles não necessariamente recorrem ao jornal de nossa Arquidiocese, pelo contrário acessam nosso blog. Eles frequentam nossa página web. Portanto, temos que ver como se articula a mensagem e temos que ver os meios para tentar chegar às pessoas.
GP - É a voz da Igreja ouvida no mundo moderno?
Cardenal Wuerl - Eu penso que estamos encontrando muitas pessoas que apreciam a voz dos bispos. Mas temos que lembrar que estamos lutando contra um quase enorme tsunami de vozes seculares. Assim, muitos dos meios de comunicação são claramente seculares e algumas vezes inclusive hostis aos princípios de que estamos falando. E portanto, é uma luta, uma luta para fazer escutar a voz do Evangelho nesta cacofonia de outras vozes.
GP - Recentemente, a Congregação para a Doutrina da Fé publicou uma "nota" com algumas sugestões de como viver o ano da fé. Qual delas, eminência, se realizará na Arquidiocese de Washington?
Cardeal Wuerl - Em nível arquidiocesano estamos fazendo quase tudo o que foi proposto. Estamos empregando todos os esforços da nova 'mídia' para chegar a nosso povo. No plano educativo estamos fazendo fóruns da catequese, estamos promovendo a participação ativa das pessoas em nível paroquial através dos conselhos paroquiais, mediante o esforço pastoral da paróquia. No compromisso de nosso esforço pela justiça social, estamos convidando as pessoas a fazerem parte de todas as diferentes iniciativas às quais as paróquias da Arquidiocese se dedicam.
O que também estamos fazendo é, cada vez que temos uma oportunidade, por exemplo se tratar-se de uma homilia no Natal, ou tratar-se de uma palestra do Advento ou de Quaresma, invadimos a comunidade com anúncios de televisão, anúncios de rádio de nossos sites web. Inclusive colocamos avisos em toda a cidade. É uma maneira de conseguir a atenção do povo, convidando-o a visitar nossa página da web.
Provavelmente, é quase tudo o que está na lista de sugestões aquilo que estamos fazendo ou nos tocou fazer em seu momento.
GP - Os frutos desses programas já podem ser sentidos?
Cardenal Wuerl - Bem, penso que estamos vendo muitos jovens responderem. Dou-lhe um exemplo. Temos o ministério catequético em uma das universidades leigas. Anos atrás, o jovem sacerdote desse ministério começou com 20 estudantes que iam a missa. E ele começou a explicar-lhes a beleza, a maravilha do Evangelho e disse a cada um: "Você deve converter-se em apóstolo deste campus. Você deve trazer alguém novo para a missa". Eu fui lá há um ano e havia 200 jovens estudantes. É só um exemplo, um dos frutos do esforço, da necessidade de convidar a regressar. A nova evangelização é, basicamente, o chamado a regressar para a Igreja. Existem pessoas afastadas e pessoas que simplesmente procuram a Palavra. E esse é apenas um exemplo.
GP - Em que nos poderá ajudar o Ano da Fé?
Cardenal Wuerl - É uma oportunidade de voltar atrás e olhar o que o Concílio disse e como estamos implantando-o bem. É uma oportunidade para renovar em nossos corações a fé, nossa convicção no Evangelho. E uma oportunidade para convidar outros a compartilhar conosco o mistério do amor de Deus e o chamado ao discipulado. E o Ano da Fé será um tempo para concentrar-se nas coisas que já são, que já existem no presente e para recordar que a nova evangelização vai continuar no futuro. O Ano da Fé está abrindo as portas para o futuro.
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
Festa da Apresentação do Senhor
02 de fevereiro
“O Senhor manifestou a sua salvação”
“Chegou a verdadeira luz, que vindo ao mundo ilumina todo ser humano” (Jo 1,9)
A Festa da Apresentação de Jesus no Templo foi fixada quarenta dias depois da Natividade, porque era a duração prescrita por Moisés para a purificação das mulheres que dão à luz, antes que elas pudessem se aproximar do santuário, do Templo. Esta festa era inicialmente celebrada no dia 14 de fevereiro (quarenta dias depois da Epifania) em Jerusalém, quando era feita uma procissão até a Igreja da Ressurreição, conforme relata Égérie nos escritos de sua peregrinação à Terra Santa (381-384).
No século VI esta festa foi introduzida em Constantinopla, em seguida foi instituída em Roma no século VII pelo Papa Sérgio I (687-701). Esse episódio aconteceu no interior do Templo onde se deu a oração de Simeão que, ao aproximar-se da Virgem e tomar o Menino nos braços, profetizou sobre os dois: “Jesus morrerá na cruz, signo de contradição, e Maria terá a alma traspassada por uma espada”. Dois outros personagens participam da cena: a profetisa Ana e José.
O ícone da Apresentação no Templo ilustra alguns paralelos interessantes: Simeão recebe Jesus nos seus braços como Isaías a brasa ardente nos lábios e como o fiel a eucaristia; José, como no ícone da Natividade, representa a humanidade incrédula diante do mistério; Simeão e Ana recordam as figuras de Adão e Eva no ícone da Ressurreição. Essa é a festa do encontro entre a humanidade e o Cristo: a Virgem Maria apresenta Jesus; Simeão e Ana, doravante muita idade, o recebem com alegria; admirado e pensativo, José assiste à cena.
A imagem do velho Simeão é a imagem mesma do pobre que encontra a salvação em Cristo. A liturgia ortodoxa das vésperas retoma suas palavras: “Agora, Senhor, tu pode deixar teu servo ir em paz segundo tua palavra, pois meus olhos viram a tua salvação, que preparastes para todos os povos” (Lucas 2, 29-31). No ocidente, esse hino foi incluído a partir do século V na liturgia de completas com o título latino Nunc dimitis. Simeão é “aquele que recebeu Deus”. A imagem de Simeão tomando o Menino Jesus em seus braços exprime uma paternidade (ou maternidade) toda espiritual.
A festa que hoje a Igreja toda celebra é o mistério de Deus feito homem, que vem ao mundo trazendo a salvação a todas as nações. Portanto, todos nós devemos correr ao encontro dessa Luz, concebida pela Virgem Maria e recebida nos braços pelo velho Simeão, na esperança de que, iluminados por ela, possamos afastar de nós todo o pecado que nos separa de Deus, e corrermos mais depressa para essa luz de comunhão com o Pai.
Texto traduzido por Salete Therezinha A. Silva (Irª Catarina de Sena, Oblata OSB) – “La présentation de Jésus au Temple” e “Le vieillard Siméon”. In: Icônes et saints d’Orient, Paris, 2005.
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