Encontro com o Pastor
Isto também é família?
Cardeal Dom Odilo Pedro Scherer
Arcebispo metropolitano de São Paulo
Este último domingo, Dia das Mães, foi ocasião para que as famílias se reunissem e festejassem as mães. Nada mais justo e bonito que manifestar o apreço e a gratidão por aquela que nos doou a vida e se desmanchou em carinhos e sacrifícios para fazer crescer os filhos. Têm grande mérito, as mulheres que acolhem generosamente a maternidade, formam pessoas dignas e gastam a vida por amor aos outros. A Igreja defende a vida e a dignidade das pessoas e vê nas mães um exemplo de quem acolhe, protege e valoriza o ser humano nas situações mais frágeis de sua existência, como a infância, a doença, a velhice e as diversas situações de deficiência. Deus as abençoe e recompense pela entrega amorosa da própria vida para fazer o outro viver.
Infelizmente, quantas mães têm que enfrentar hoje sozinhas a responsabilidade da maternidade e da criação dos filhos, por terem sido abandonadas à própria sorte, ou porque a maternidade sobreveio em momento ainda precoce, sem ter sido constituído um casal, um matrimônio e uma família?! Merecem grande apreço também essas corajosas mães! Mas é lamentável que isso aconteça, pois acabam sendo prejudicados a mãe, o filho e também a própria sociedade.
Infelizmente, as mudanças culturais pelas quais a humanidade passa têm entre suas características a perda dos referenciais éticos nas relações interpessoais, e também a banalização das relações sexuais. Há um incentivo mais ou menos explícito à vida sexual ativa muito precoce; que dizer da distribuição, por órgãos do Governo, de preservativos em escolas para crianças e adolescentes?! E isso leva a uma difusa promiscuidade sexual (“basta usar camisinha”...) e ao desrespeito pela dignidade da mulher, que vem camuflado, com frequência, por discursos de “defesa” da liberdade feminina. A mulher está hoje muito mais exposta à exploração sexual inescrupulosa, à violência e à maternidade indesejada, precoce e fora do contexto desejável, que seria a do Matrimônio e da família constituída.
E o que dizer da decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), na semana passada, de equiparar a união estável entre pessoas do mesmo sexo às uniões estáveis entre um homem e uma mulher, com o imediato reconhecimento oficial do seu status e dos consequentes direitos? Foi uma decisão lamentável, que tende a enfraquecer ainda mais a família e coloca mais um elemento de confusão na cultura atual. Afinal, aonde se pretende chegar? Uma união homoafetiva jamais poderá ter o significado antropológico, nem responder ao papel social de um casal natural, formado de homem e mulher e destinado a se constituir numa verdadeira família. Na prática, o STF também passou por cima das competências do Congresso Nacional, ao qual, de fato, cabe fazer novas leis; e também abriu as portas para a consequente aprovação do “casamento” entre pessoas do mesmo sexo. Esse é um absurdo total, pois “casamento”, por natureza, só pode existir entre pessoas de sexos diferentes. Vejo aqui sinais evidentes de uma decadência cultural e moral sem precedentes.
De toda maneira, as coisas não mudaram as posições da Igreja, nem suas normas morais em relação às uniões homoafetivas. A posição da Igreja não depende dos votos da maioria, mas decorre da verdade do Evangelho sobre o homem, sobre o mundo e sobre Deus. As uniões homoafetivas não podem pretender a bênção ou até o sacramento da Igreja, que continuará a considerá-las ilegítimas e contrárias aos costumes morais cristãos.
Apesar das dificuldades que afetam a instituição familiar neste momento, a Igreja continua a valorizar a família natural, formada a partir da união de um homem e de uma mulher, e a acreditar no seu futuro. Sua existência não depende de leis dos Estados, mas é anterior a elas e decorre da natureza do ser humano, na qual se expressa um desígnio de Deus Criador. Os Estados precisam, isso sim, amparar e proteger mediante leis adequadas essa instituição, que é básica também para uma sociedade saudável e bem estruturada.
A 49ª Assembleia Geral da CNBB, reunida em Aparecida nesta semana, também manifesta sua confiança nas famílias cristãs e católicas, pedindo que continuem a testemunhar para o mundo os valores do Evangelho da vida, a família no convívio social. As famílias têm grande importância para a transmissão da fé e da experiência religiosa às novas gerações.
Jormal O São Paulo
10 a 16 de maio de 2011

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