terça-feira, 31 de maio de 2011

Devolvendo humanidade às crianças com Down (1 e 2)

A autora Clara Lejeune-Gaymard fala do legado do seu pai

Por Carrie Gress
WASHINGTON, segunda-feira, 30 de maio de 2011 (ZENIT.org) – “Um dos objetivos do meu pai foi devolver humanidade às crianças com síndrome de Down”, afirma Clara Lejeune-Gaymard.
Nesta entrevista com ZENIT, Lejeune-Gaymard, autora de “Life is a Blessing: A Biography of Jerome Lejeune”, fala sobre seu livro e sobre seu pai, o cientista francês que descobriu a origem da síndrome de Down, sua vida e seu trabalho, recentemente publicado em inglês por The National Catholic Bioethics Center.

ZENIT: Seu pai foi um renomado cientista de genética na França, que viajou pelo mundo dando a conhecer suas numerosas descobertas, incluindo a origem da síndrome de Down. Por que seu nome não é muito conhecido, apesar do seu importante trabalho?
Lejeune-Gaymard: Esta é uma boa pergunta. Quando ele fez a descoberta da trissomia 21, poderia tê-la chamado de “Lejeune”, como muitos cientistas fazem. Mas ele não quis; porém, quis realizar duas coisas.
A primeira tinha a ver com todas as coisas humilhantes que eram ditas sobre as crianças com síndrome de Down, como que a mãe tinha tido um mal comportamento sexual ou que sua herança familiar era ruim.
Estas crianças eram escondidas, especialmente na França e no resto da Europa. Ele quis devolver a humanidade e o orgulho dessas crianças a seus pais, dizendo-lhes que estava em seu código genético e que não vinha da família nem de um mau comportamento.
Também foi a primeira vez que se descobriu que uma doença podia vir do código genético, de maneira que se abria a porta à medicina genética e à compreensão de que um cromossomo poderia ser a causa de uma doença.
Somente seis meses antes da descoberta, dizia-se que era impossível que o código genético pudesse causar uma doença. Mas ele conseguiu provar o contrário. E a segunda coisa que ele queria era proteger os não-nascidos.
Ele era muito conhecido na França e na comunidade científica porque ajudou a construir a primeira cátedra conhecida em genética em Israel e na Espanha e trabalhou com cientistas nos Estados Unidos. Na França, participou sempre como colunista na imprensa sobre questões genéticas.
Em 1969, começou a campanha do aborto da Europa, França e Estados Unidos. E desde que ele se declarou contra, todas as portas lhe foram fechadas. Então, ele já não fez parte da atualidade. Ninguém quis entrevistá-lo quando realizou sua descoberta.
Acho que em 1971 ele foi aos Estados Unidos e deu um discurso no National Institute for Health e depois disso mandou uma mensagem à minha mãe, dizendo: “Hoje eu perdi meu prêmio Nobel”. No seu discurso, falou sobre o aborto, dizendo: “Vocês estão transformando seu instituto de saúde em um instituto de morte”. E isso não foi bem aceito.

ZENIT: O livro sobre a vida do seu pai reúne uma série de momentos da vida da sua família, que iluminam não somente o trabalho científico do seu pai, como também sua profunda fé. O que lhe fez decidir escrever sobre ele com este estilo?
Lejeune-Gaymard: Eu estava grávida quando ele ficou doente; estava esperando meu sexto filho e, durante esse tempo, eu achava que ele poderia viver o suficiente para poder conhecer minha filha. Ele morreu em 3 de abril e ela nasceu em 13 de abril; então, ela nunca conheceu seu avô.
Antes de morrer, eu lhe perguntei se ele me autorizava a escrever um livro sobre ele. Eu temia que ele dissesse “não”, porque era um homem muito humilde, mas ele respondeu: “Faça o que você quiser. Se você quer dar testemunho da vida da criança com síndrome de Down, faça o que quiser”.
Tinha claro que eu queria escrever algo para a minha pequena. No começo, escrevi 30 páginas e, quando passamos as férias com um jornalista, eu lhe contei que estava escrevendo umas páginas para que a minha filha pudesse conhecer seu avô. Ele leu o material e me disse que deveria escrever um livro.
A forma como queria escrevê-lo não era a da biografia cronológica, mas como uma espécie de retratos diferentes de uma pessoa. Há um capítulo sobre a nossa vida na Dinamarca, um sobre ele como médico, outro como cristão. Cada capítulo é uma peça diferente do quebra-cabeças e, no final, você encontra o retrato da pessoa inteira.

ZENIT: Seu pai sofreu muito em sua carreira, devido à sua postura pró-vida. Suas convicções se baseavam em sua fé ou também em sua pesquisa científica?
Lejeune-Gaymard: Principalmente no fato de ser médico, não em sua fé. Quando você é médico, você faz o juramento hipocrático e promete não causar dano. E ele sempre dizia que o respeito à vida não tinha nada a ver com a fé, ainda que, certamente, faz parte da fé respeitar a vida.
Por isso, ele foi tão odiado pelos partidários do aborto. Era difícil lutar contra ele, porque seus argumentos eram de base científica. Ele quis explicar que a vida começava na concepção, quis contar uma história que fosse inteligível para todos, como “Tom Thumb”. Esta é uma história para crianças ou uma lenda, mas é uma realidade.
É muito estranho que a humanidade tenha sido capaz de contar uma história assim sem saber se era verdade, porque, quando foi escrita, não havia fotos de bebês no útero.
A vida começa no instante da concepção, quando os genes da mãe e os do pai se unem para formar um novo ser humano, que é absolutamente único. Todo o patrimônio genético já está lá. É como uma música de Mozart na partitura. A vida inteira já está lá.
Aos dois meses, o embrião já tem tudo: mãos, olhos, corpo. É um corpo muito pequeno, mas depois de dois meses, a única coisa que faz é crescer. Se pudéssemos pegar seu dedo pequeno, já seria possível observar sua impressão digital.

ZENIT: Muitos pesquisadores mantêm distância daqueles cuja vida afeta seu trabalho. Seu pai parecia ter um enfoque diferente. Como era sua relação com os pacientes e suas famílias?
Lejeune-Gaymard: Quando ele se tornou médico, seu primeiro trabalho foi em um hospital onde ele viu uma criança com Down. Foi então que decidiu que queria saber por que tinham essa fisionomia especial e todo o resto. Poderíamos dizer que esta foi realmente sua vocação. Verdadeiramente queria encontrar uma maneira de tratá-las e a isso dedicou sua pesquisa.
Ele fez essa descoberta porque amava essas crianças e suas famílias e queria ajudá-las. Querer cuidar das crianças Down não foi consequência desta descoberta, mas sim o contrário: porque ele queria cuidar destas crianças, fez esta descoberta. E isso explica sua relação com elas.

ZENIT: Depois da sua morte, sua família criou uma fundação para continuar seu trabalho, especialmente o de encontrar uma cura para a síndrome de Down. O que esta fundação faz e como trabalha?
Lejeune-Gaymard: Meu pai quis criar esta fundação quando ainda estava vivo, porque ele sabia que teria de retirar-se e queria que sua pesquisa continuasse. No começo, era seu projeto. Um dia antes dele morrer, fui vê-lo e ele me disse que estava triste pelos seus pacientes, porque eles não entenderiam sua partida. Disse: “Eu os estou abandonando e eles não entenderão por que já nunca mais estarei com eles”. Eu respondi: “Eles entenderão. Entenderão melhor do que nós”. Então, ele me disse: “Não, eles não o entenderão melhor, mas sim mais profundamente”.
E depois disso, quando ele faleceu, nós pensamos em fazer algo a mais pelos seus pacientes. Depois de um ano e meio, começamos uma fundação dedicada à pesquisa e tratamento não só da síndrome de Down, mas também de outras síndromes de origem genética. Criamos um centro na França, de pesquisa genética, e temos um comitê que distribui as ajudas aos diferentes grupos que estão no mundo inteiro. Fundamos 60 projetos nos Estados Unidos, com 32 equipes, e estamos em processo de começar uma fundação lá que se encarregará de mais pesquisa e tratamento.
O tratamento real não existe atualmente, já que os pesquisadores estão trabalhando em solucionar este problema genético. O patrimônio genético das crianças é correto, simplesmente se repete, como um disco riscado. Meu pai sempre dizia que uma criança Down é mais criança que as outras: é como se não estivesse totalmente acabada. Então, se esse gene pudesse ser silenciado, a criança poderia ser normal. E este é realmente o futuro da medicina, reparar o código genético. Portanto, não é louca a ideia de que possamos tratar deles algum dia. A dificuldade está em que se gasta muito dinheiro em realizar o diagnóstico e matar as crianças, até o ponto de que, se pudéssemos ter somente 10% desse dinheiro para a pesquisa, já poderíamos ter chegado à cura.

ZENIT: Seu pai foi amigo de João Paulo II, servindo muitos anos como membro da Academia Pontifícia das Ciências e como o primeiro presidente da Academia Pontifícia para a Vida. Como era essa relação?
Lejeune-Gaymard: Ele não diria que foi uma amigo íntimo do Papa, mas na verdade foi, sim. A história começou quando foi escolhido para a Academia Pontifícia das Ciências por Paulo VI, não João Paulo II. Mas quando este chegou a ser papa, pediu ao meu pai que fosse até o Vaticano, porque queria saber tudo sobre clonagem, pesquisa com embriões etc. Então, tomaram café juntos e, desde então, o Papa o chamava cada vez que precisava de explicações particulares. Almoçavam juntos cada seis meses.
Em 1981, no dia 13 de maio, meu pai almoçou com a minha mãe e com o Papa. Depois pegaram um táxi para ir ao aeroporto, voaram para casa e, quando aterrissaram, ficaram sabendo que o Papa estava entre a vida e a morte, porque tinham atirado nele. Eles foram as últimas pessoas com quem João Paulo II tinha estado antes de ir à Praça de São Pedro. Meu pai, naquela tarde, sofreu umas dores inexplicáveis, tanto que foi hospitalizado durante três dias. Experimentou sofrimentos similares aos do Papa e uma febre que desembocou em pedras no rim. Ele nunca quis falar da conexão entre sua doença e a do Papa, mas esta realmente existiu.
Antes do meu pai morrer, recebeu um telegrama do Papa, que dizia que esperava que melhorasse da saúde. Quando ele morreu, no domingo de Páscoa, ligamos para o Papa, para comunicar-lhe sobre o falecimento. Tínhamos um bom amigo, o ex-ministro de Justiça da França, que nos ligou naquele dia porque, ao ver o Papa dando a bênção na televisão, notou que parecia muito triste, e pensou: “Acho que o Jerome morreu”.
Quando João Paulo II veio à França, em 1997, quis visitar e rezar diante do túmulo do meu pai. Nesse momento, acompanhados por muitos guardas e agentes de segurança, deixaram nossa família estar presente. Tive de negociar para que se permitisse a entrada de pessoas com deficiência, já que meu pai não entenderia esta visita do Papa sem a presença das suas outras crianças.
--- --- ---
Agência ZENIT 30 e 31 de maio de 2011

Na internet: "Life is a Blessing": 
Foundation Lejeunehttp://lejeuneusa.org/

terça-feira, 24 de maio de 2011

APELO DO PAPA BENTO xvi

24 de maio: católicos do mundo inteiro rezarão pela China


CIDADE DO VATICANO, segunda-feira, 23 de maio de 2011 (ZENIT.org) - Bento XVI acredita no poder da oração e por isso pediu que todos os católicos rezem amanhã, 24 de maio, pela Igreja na China, segundo explica seu porta-voz.

O Pe. Federico Lombardi SJ, diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, relançou no editorial da última edição de Octava Dies, semanário Centro Televisivo Vaticano, o apelo que o Papa fez na quarta-feira passada, a favor dos batizados da Igreja no país comunista que vive momentos particularmente difíceis.

"Deve ser um compromisso - dizia o Papa: estes fiéis têm direito à nossa oração, eles precisam da nossa oração."

O Dia Mundial de Oração pela Igreja na China foi convocado pelo Papa Bento XVI na carta que dirigiu aos católicos chineses (27 de maio de 2007), no dia dedicado à memória litúrgica da Bem-Aventurada Virgem Maria, Auxílio dos Cristãos, venerada com tanta devoção no santuário mariano de Sheshan, em Xangai.

Nessa carta, o Papa pediu orações para que a Igreja no país possa superar as feridas e as divisões que surgiram sob a pressão das autoridades comunistas, entre outras coisas, para promover a ordenação de bispos sem o reconhecimento de Roma.

O Papa acredita no poder da oração e nos convida a estar "confiantes em que, com a oração, podemos fazer algo muito real" pela Igreja, disse o Pe. Lombardi. "Precisamente porque a situação atual da Igreja na China está marcada pelo sofrimento e por pressões contrárias à união, precisamos rezar mais intensamente", concluiu o porta-voz.

sábado, 14 de maio de 2011


 Encontro com o Pastor
 
 
  Isto também é família?
 
 

Cardeal Dom Odilo Pedro Scherer
Arcebispo metropolitano de São Paulo
 

Este último domingo, Dia das Mães, foi ocasião para que as famílias se reunissem e festejassem as mães. Nada mais justo e bonito que manifestar o apreço e a gratidão por aquela que nos doou a vida e se desmanchou em carinhos e sacrifícios para fazer crescer os filhos. Têm grande mérito, as mulheres que acolhem generosamente a maternidade, formam pessoas dignas e gastam a vida por amor aos outros. A Igreja defende a vida e a dignidade das pessoas e vê nas mães um exemplo de quem acolhe, protege e valoriza o ser humano nas situações mais frágeis de sua existência, como a infância, a doença, a velhice e as diversas situações de deficiência. Deus as abençoe e recompense pela entrega amorosa da própria vida para fazer o outro viver.
 
Infelizmente, quantas mães têm que enfrentar hoje sozinhas a responsabilidade da maternidade e da criação dos filhos, por terem sido abandonadas à própria sorte, ou porque a maternidade sobreveio em momento ainda precoce, sem ter sido constituído um casal, um matrimônio e uma família?! Merecem grande apreço também essas corajosas mães! Mas é lamentável que isso aconteça, pois acabam sendo prejudicados a mãe, o filho e também a própria sociedade.
 
Infelizmente, as mudanças culturais pelas quais a humanidade passa têm entre suas características a perda dos referenciais éticos nas relações interpessoais, e também a banalização das relações sexuais. Há um incentivo mais ou menos explícito à vida sexual ativa muito precoce; que dizer da distribuição, por órgãos do Governo, de preservativos em escolas para crianças e adolescentes?! E isso leva a uma difusa promiscuidade sexual (“basta usar camisinha”...) e ao desrespeito pela dignidade da mulher, que vem camuflado, com frequência, por discursos de “defesa” da liberdade feminina. A mulher está hoje muito mais exposta à exploração sexual inescrupulosa, à violência e à maternidade indesejada, precoce e fora do contexto desejável, que seria a do Matrimônio e da família constituída.

E o que dizer da decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), na semana passada, de equiparar a união estável entre pessoas do mesmo sexo às uniões estáveis entre um homem e uma mulher, com o imediato reconhecimento oficial do seu status e dos consequentes direitos? Foi uma decisão lamentável, que tende a enfraquecer ainda mais a família e coloca mais um elemento de confusão na cultura atual. Afinal, aonde se pretende chegar? Uma união homoafetiva jamais poderá ter o significado antropológico, nem responder ao papel social de um casal natural, formado de homem e mulher e destinado a se constituir numa verdadeira família. Na prática, o STF também passou por cima das competências do Congresso Nacional, ao qual, de fato, cabe fazer novas leis; e também abriu as portas para a consequente aprovação do “casamento” entre pessoas do mesmo sexo. Esse é um absurdo total, pois “casamento”, por natureza, só pode existir entre pessoas de sexos diferentes. Vejo aqui sinais evidentes de uma decadência cultural e moral sem precedentes.

De toda maneira, as coisas não mudaram as posições da Igreja, nem suas normas morais em relação às uniões homoafetivas. A posição da Igreja não depende dos votos da maioria, mas decorre da verdade do Evangelho sobre o homem, sobre o mundo e sobre Deus. As uniões homoafetivas não podem pretender a bênção ou até o sacramento da Igreja, que continuará a considerá-las ilegítimas e contrárias aos costumes morais cristãos.
 
Apesar das dificuldades que afetam a instituição familiar neste momento, a Igreja continua a valorizar a família natural, formada a partir da união de um homem e de uma mulher, e a acreditar no seu futuro. Sua existência não depende de leis dos Estados, mas é anterior a elas e decorre da natureza do ser humano, na qual se expressa um desígnio de Deus Criador. Os Estados precisam, isso sim, amparar e proteger mediante leis adequadas essa instituição, que é básica também para uma sociedade saudável e bem estruturada.

A 49ª Assembleia Geral da CNBB, reunida em Aparecida nesta semana, também manifesta sua confiança nas famílias cristãs e católicas, pedindo que continuem a testemunhar para o mundo os valores do Evangelho da vida, a família no convívio social. As famílias têm grande importância para a transmissão da fé e da experiência religiosa às novas gerações.

Jormal O São Paulo
10 a 16 de maio de 2011

quarta-feira, 11 de maio de 2011

CNBB: DECISÃO DO SUPREMO SOBRE UNIÃO ENTRE PESSOAS DO MESMO SEXO


Nota da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil

APARECIDA, quarta-feira, 11 de maio de 2011 (ZENIT.org) - Apresentamos a nota divulgada nesta quarta-feira pela CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) sobre a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que, na quinta-feira passada, aprovou a união estável entre pessoas do mesmo sexo.

* * *

Nós, Bispos do Brasil em Assembleia Geral, nos dias 4 a 13 de maio, reunidos na casa da nossa Mãe, Nossa Senhora Aparecida, dirigimo-nos a todos os fiéis e pessoas de boa vontade para reafirmar o princípio da instituição familiar e esclarecer a respeito da união estável entre pessoas do mesmo sexo. Saudamos todas as famílias do nosso País e as encorajamos a viver fiel e alegremente a sua missão. Tão grande é a importância da família, que toda a sociedade tem nela a sua base vital. Por isso é possível fazer do mundo uma grande família.
A diferença sexual é originária e não mero produto de uma opção cultural. O matrimônio natural entre o homem e a mulher bem como a família monogâmica constituem um princípio fundamental do Direito Natural. As Sagradas Escrituras, por sua vez, revelam que Deus criou o homem e a mulher à sua imagem e semelhança e os destinou a ser uma só carne (cf. Gn 1,27; 2,24). Assim, a família é o âmbito adequado para a plena realização humana, o desenvolvimento das diversas gerações e constitui o maior bem das pessoas.
As pessoas que sentem atração sexual exclusiva ou predominante pelo mesmo sexo são merecedoras de respeito e consideração. Repudiamos todo tipo de discriminação e violência que fere sua dignidade de pessoa humana (cf. Catecismo da Igreja Católica, nn. 2357-2358).
As uniões estáveis entre pessoas do mesmo sexo recebem agora em nosso País reconhecimento do Estado. Tais uniões não podem ser equiparadas à família, que se fundamenta no consentimento matrimonial, na complementaridade e na reciprocidade entre um homem e uma mulher, abertos à procriação e educação dos filhos. Equiparar as uniões entre pessoas do mesmo sexo à família descaracteriza a sua identidade e ameaça a estabilidade da mesma. É um fato real que a família é um recurso humano e social incomparável, além de ser também uma grande benfeitora da humanidade. Ela favorece a integração de todas as gerações, dá amparo aos doentes e idosos, socorre os desempregados e pessoas portadoras de deficiência. Portanto têm o direito de ser valorizada e protegida pelo Estado.
É atribuição do Congresso Nacional propor e votar leis, cabendo ao governo garanti-las. Preocupa-nos ver os poderes constituídos ultrapassarem os limites de sua competência, como aconteceu com a recente decisão do Supremo Tribunal Federal. Não é a primeira vez que no Brasil acontecem conflitos dessa natureza que comprometem a ética na política.
A instituição familiar corresponde ao desígnio de Deus e é tão fundamental para a pessoa que o Senhor elevou o Matrimônio à dignidade de Sacramento. Assim, motivados pelo Documento de Aparecida, propomo-nos a renovar o nosso empenho por uma Pastoral Familiar intensa e vigorosa.
Jesus Cristo Ressuscitado, fonte de Vida e Senhor da história, que nasceu, cresceu e viveu na Sagrada Família de Nazaré, pela intercessão da Virgem Maria e de São José, seu esposo, ilumine o povo brasileiro e seus governantes no compromisso pela promoção e defesa da família.

Aparecida (SP), 11 de maio de 2011

Dom Geraldo Lyrio Rocha
Presidente da CNBB
Arcebispo de Mariana – MG

Dom Luiz Soares Vieira
Vice Presidente da CNBB
Arcebispo de Manaus – AM

Dom Dimas Lara Barbosa
Secretário Geral da CNBB
Arcebispo nomeado para Campo Grande - MS

domingo, 8 de maio de 2011

Sínodo sobre a Nova Evangelização



Em outubro de 2012 será realizada a 13ª Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, em Roma; o tema já escolhido pelo papa Bento 16 é: “Nova evangelização para a transmissão da fé cristã”. A partir de um primeiro texto contendo linhas gerais para a abordagem do tema, chamado “Lineamenta”, as conferências episcopais do mundo inteiro agora estão sendo chamadas a dar suas contribuições, para que seja produzido o “Instrumento de Trabalho” para a assembleia sinodal.

A questão da nova evangelização torna-se cada vez mais relevante em nossos tempos e, por isso mesmo, o papa Bento 16 instituiu o Pontifício Conselho para promover a nova evangelização em todo o mundo, mas sobretudo nos países e lugares de antiga evangelização, onde a fé cristã está passando por sérias dificuldades, correndo até mesmo o risco de desaparecer.

Tal preocupação não é nova e já foi um dos motivos mais importantes da convocação do Concílio Vaticano 2º, cujos 50 anos serão comemorados a partir de 2012. As Conferências Gerais do Episcopado da América Latina, principalmente as de Santo Domingo (1992) e Aparecida (2007), também tiveram esta mesma preocupação; e as assembleias continentais do Sínodo dos Bispos, na preparação para o Grande Jubileu, enquanto faziam uma avaliação dos frutos já produzidos em 2000 anos de pregação do Evangelho, eram igualmente motivadas pela busca de novos caminhos para a evangelização.

A Igreja no Brasil, através de sucessivas iniciativas da CNBB, sobretudo das Diretrizes Plurianuais da Ação Evangelizadora, dos Projetos Nacionais de Evangelização e dos constantes estímulos à pastoral de conjunto, tem buscado cumprir a sua missão de evangelizar. A próxima Assembleia Geral da CNBB, a iniciar amanhã, em Aparecida, mais uma vez vai concentrar seus esforços na elaboração das Diretrizes Gerais, que deverão orientar a ação evangelizadora nos próximos anos.

A “nova evangelização” decorre do próprio mandato de Cristo aos Apóstolos: “Ide por todo o mundo, fazei discípulos meus entre todas as gentes”; é Deus que deseja que a Boa Nova chegue a todos; por isso, é um direito de cada ser humano conhecer o Evangelho e ser por ele iluminado na vida. Mas “como crerão naquele, de quem nunca ouviram falar? E como ouvirão falar, se não houver que anuncia?” (Rm 10,14). A evangelização há de ser sempre “nova” e expressar o esforço constante da Igreja no cumprimento de sua missão primordial: anunciar o Evangelho a todos os povos, sempre e por toda parte.

É uma obra nunca concluída. Grande parte da humanidade ainda não recebeu o anúncio do Evangelho; e onde, em tempos passados, ele foi anunciado e a vida cristã chegou mesmo a ser florescente, será preciso retomar sempre de novo o processo de transmissão da fé; em vários momentos da História foi necessária uma verdadeira retomada da evangelização quando, por motivos vários, a fé e o fervor cristão arrefeceram, ou até mesmo se desvirtuaram em função de desvios e falsas doutrinas.

Além disso, o cristianismo convive com outras tendências religiosas, que podem atrair os próprios cristãos e católicos, quando a sua fé não é bastante esclarecida e cultivada; e também convive com modos de vida pagãos, que São João qualificaria como sendo “do mundo” e São Paulo atribuiria “ao homem velho”, ainda escravo de seus vícios e paixões... O anúncio do Evangelho deve iluminar todas essas realidades, para que sejam transformadas sempre mais, de acordo com o reino de Deus.

A próxima Assembleia do Sínodo dos Bispos, em 2012, vai confrontar-se especialmente com os cenários atuais da evangelização, com as novas tendências culturais, que por vezes se fecham e até se opõem às convicções e aos valores cristãos; por outro lado, a nova evangelização deverá suscitar na própria Igreja uma autêntica conversão pastoral e missionária, como convidou a Conferência de Aparecida, do Episcopado da América Latina e do Caribe; já não é mais possível fazer uma pastoral apenas de conservação da vida eclesial, mas é necessário “lançar as redes em águas mais profundas” e ter em conta os vastos horizontes da missão, ainda não atendidos suficientemente.

De maneira especial, a Igreja de Cristo precisa tomar consciência, de forma renovada, de que o dom do Evangelho não pode ser retido para si, por aqueles que já crêem, mas precisa ser compartilhado com os outros, como um bem precioso que Deus, através dela, quer fazer chegar a toda a humanidade. A transmissão da fé é decorrência da autenticidade da fé e da alegria de crer. Da nova assembleia sinodal espera-se uma decisiva retomada do processo evangelizador em toda a Igreja.


 

Publicado em O SÃO PAULO, ed. de 03.05.2011
Card. Odilo P. Scherer
Arcebispo de São Paulo
 
Simpósio e Colóquio: Filosofia e Teologia


Programação

09 de Maio – Segunda-feira
9h -  Abertura
09h10 – O mal nas sobras do primeiro Agostinho (De ordine e De libero arbítrio) – Prof. Dr. Lorenzo Mammi (USP)
10H30 – Intervalo
11h – A natureza do mal segundo Pseudo-Dionísio Areopagita – Prof. Dr. Joel Gracioso (FSB)
12h – Intervalo
13h30 – A concepção do mal em Orígenes: Uma leitura do De Principiis – Prf. Ms. Pe. Marco Antonio Schettini (SMME)
14h30 – Paixões e demônios: As figuras do mal e seu significado na doutrina ascética de Evágrio Pôntico – Prof. Dr. Elcio Verçosa Filho (PUC-SP)
15H30 – Intervalo
16h – A origem do mal na “Oratio Catechetica Magna” de Gregório de Nissa – Prof. Dr. Jorge Algusto da Silva Santos (UFES)
17h30 – Encerramento

10 de Maio – Terça-feira

09h – O significado do mal em Anselmo de Cantuária – Prof. Dr. Paulo Ricardo Martinez (UEM)
10H15 – Intervalo
10h40 – A questão do mal segundo Santo Tomás – Prof. Ms. Dom João Evangelista Kovas, OSB (FSB)
11h40 – O conceito de mal segundo Ibn Sina (Avicena) – Prof. Dr. Jamil Ibrahim Iskandar (UNIFESP)
12h40 – Intervalo
14h – A questão do mal em Moisés Maimônides – Profª Drª Cecília Cintra Cavaleiro de Macedo (UNIFESP)
15h – Intervalo
15h30 – O mal e o pecado segundo São Boaventura – Prof. Dr. Manoel Vasconcellos (UFPEL)
16H30 – Scotus: Sobre a liberdade, o pecado e o mal – Prof. Dr. Roberto H. Pich (PUC-RS)
 18h – Encerramento





domingo, 1 de maio de 2011




CAPELA PAPAL
POR OCASIÃO DA


BEATIFICAÇÃO DO SERVO DE DEUS JOÃO PAULO II
HOMILIA DO PAPA BENTO XVI
Átrio da Basílica Vaticana
Domingo, 1° de Maio de 2011

Amados irmãos e irmãs,

Passaram já seis anos desde o dia em que nos encontrávamos nesta Praça para celebrar o funeral do Papa João Paulo II. Então, se a tristeza pela sua perda era profunda, maior ainda se revelava a sensação de que uma graça imensa envolvia Roma e o mundo inteiro: graça esta, que era como que o fruto da vida inteira do meu amado Predecessor, especialmente do seu testemunho no sofrimento. Já naquele dia sentíamos pairar o perfume da sua santidade, tendo o Povo de Deus manifestado de muitas maneiras a sua veneração por ele. Por isso, quis que a sua Causa de Beatificação pudesse, no devido respeito pelas normas da Igreja, prosseguir com discreta celeridade. E o dia esperado chegou! Chegou depressa, porque assim aprouve ao Senhor: João Paulo II é Beato!
Desejo dirigir a minha cordial saudação a todos vós que, nesta circunstância feliz, vos reunistes, tão numerosos, aqui em Roma vindos de todos os cantos do mundo: cardeais, patriarcas das Igrejas Católicas Orientais, irmãos no episcopado e no sacerdócio, delegações oficiais, embaixadores e autoridades, pessoas consagradas e fiéis leigos; esta minha saudação estende-se também a quantos estão unidos conosco através do rádio e da televisão.
Estamos no segundo domingo de Páscoa, que o Beato João Paulo II quis intitular Domingo da Divina Misericórdia. Por isso, se escolheu esta data para a presente celebração, porque o meu Predecessor, por um desígnio providencial, entregou o seu espírito a Deus justamente ao anoitecer da vigília de tal ocorrência. Além disso, hoje tem início o mês de Maio, o mês de Maria; e neste dia celebra-se também a memória de São José operário. Todos estes elementos concorrem para enriquecer a nossa oração; servem-nos de ajuda, a nós que ainda peregrinamos no tempo e no espaço; no Céu, a festa entre os Anjos e os Santos é muito diferente! E todavia Deus é um só, e um só é Cristo Senhor que, como uma ponte, une a terra e o Céu, e neste momento sentimo-lo muito perto, sentimo-nos quase participantes da liturgia celeste.
«Felizes os que acreditam sem terem visto» (Jo 20, 29). No Evangelho de hoje, Jesus pronuncia esta bem-aventurança: a bem-aventurança da fé. Ela chama de modo particular a nossa atenção, porque estamos reunidos justamente para celebrar uma Beatificação e, mais ainda, porque o Beato hoje proclamado é um Papa, um Sucessor de Pedro, chamado a confirmar os irmãos na fé. João Paulo II é Beato pela sua forte e generosa fé apostólica. E isto traz imediatamente à memória outra bem-aventurança: «Feliz de ti, Simão, filho de Jonas, porque não foram a carne e o sangue que to revelaram, mas sim meu Pai que está nos Céus» (Mt 16, 17). O que é que o Pai celeste revelou a Simão? Que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus vivo. Por esta fé, Simão se torna «Pedro», rocha sobre a qual Jesus pode edificar a sua Igreja. A bem-aventurança eterna de João Paulo II, que a Igreja tem a alegria de proclamar hoje, está inteiramente contida nestas palavras de Cristo: «Feliz de ti, Simão» e «felizes os que acreditam sem terem visto». É a bem-aventurança da fé, cujo dom também João Paulo II recebeu de Deus Pai para a edificação da Igreja de Cristo.
Entretanto perpassa pelo nosso pensamento mais uma bem-aventurança que, no Evangelho, precede todas as outras. É a bem-aventurança da Virgem Maria, a Mãe do Redentor. A Ela, que acabava de conceber Jesus no seu ventre, diz Santa Isabel: «Bem-aventurada aquela que acreditou no cumprimento de tudo quanto lhe foi dito da parte do Senhor» (Lc 1, 45). A bem-aventurança da fé tem o seu modelo em Maria, pelo que a todos nos enche de alegria o facto de a beatificação de João Paulo II ter lugar no primeiro dia deste mês mariano, sob o olhar materno d’Aquela que, com a sua fé, sustentou a fé dos Apóstolos e não cessa de sustentar a fé dos seus sucessores, especialmente de quantos são chamados a sentar-se na cátedra de Pedro. Nas narrações da ressurreição de Cristo, Maria não aparece, mas a sua presença pressente-se em toda a parte: é a Mãe, a quem Jesus confiou cada um dos discípulos e toda a comunidade. De forma particular, notamos que a presença real e materna de Maria aparece assinalada por São João e São Lucas nos contextos que precedem tanto o Evangelho como a primeira Leitura de hoje: na narração da morte de Jesus, onde Maria aparece aos pés da Cruz (Jo 19, 25); e, no começo dos Actos dos Apóstolos, que a apresentam no meio dos discípulos reunidos em oração no Cenáculo (Act 1, 14).
Também a segunda Leitura de hoje nos fala da fé, e é justamente São Pedro que escreve, cheio de entusiasmo espiritual, indicando aos recém-baptizados as razões da sua esperança e da sua alegria. Apraz-me observar que nesta passagem, situada na parte inicial da sua Primeira Carta, Pedro exprime-se não no modo exortativo, mas indicativo. De facto, escreve: «Isto vos enche de alegria»; e acrescenta: «Vós amais Jesus Cristo sem O terdes conhecido, e, como n’Ele acreditais sem O verdes ainda, estais cheios de alegria indescritível e plena de glória, por irdes alcançar o fim da vossa fé: a salvação das vossas almas» (1 Ped 1, 6.8-9). Está tudo no indicativo, porque existe uma nova realidade, gerada pela ressurreição de Cristo, uma realidade que nos é acessível pela fé. «Esta é uma obra admirável – diz o Salmo (118, 23) – que o Senhor realizou aos nossos olhos», os olhos da fé.
Queridos irmãos e irmãs, hoje diante dos nossos olhos brilha, na plena luz de Cristo ressuscitado, a amada e venerada figura de João Paulo II. Hoje, o seu nome junta-se à série dos Santos e Beatos que ele mesmo proclamou durante os seus quase 27 anos de pontificado, lembrando com vigor a vocação universal à medida alta da vida cristã, à santidade, como afirma a Constituição conciliar Lumem gentium sobre a Igreja. Os membros do Povo de Deus – bispos, sacerdotes, diáconos, fiéis leigos, religiosos e religiosas – todos nós estamos a caminho da Pátria celeste, tendo-nos precedido a Virgem Maria, associada de modo singular e perfeito ao mistério de Cristo e da Igreja. Karol Wojtyła, primeiro como Bispo Auxiliar e depois como Arcebispo de Cracóvia, participou no Concílio Vaticano II e bem sabia que dedicar a Maria o último capítulo da Constituição sobre a Igreja significava colocar a Mãe do Redentor como imagem e modelo de santidade para todo o cristão e para a Igreja inteira. Foi esta visão teológica que o Beato João Paulo II descobriu na sua juventude, tendo-a depois conservado e aprofundado durante toda a vida; uma visão, que se resume no ícone bíblico de Cristo crucificado com Maria ao pé da Cruz. Um ícone que se encontra no Evangelho de João (19, 25-27) e está sintetizado nas armas episcopais e, depois, papais de Karol Wojtyła: uma cruz de ouro, um «M» na parte inferior direita e o lema «Totus tuus», que corresponde à conhecida frase de São Luís Maria Grignion de Monfort, na qual Karol Wojtyła encontrou um princípio fundamental para a sua vida: «Totus tuus ego sum et omnia mea tua sunt. Accipio Te in mea omnia. Praebe mihi cor tuum, Maria – Sou todo vosso e tudo o que possuo é vosso. Tomo-vos como toda a minha riqueza. Dai-me o vosso coração, ó Maria» (Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, n. 266).
No seu Testamento, o novo Beato deixou escrito: «Quando, no dia 16 de Outubro de 1978, o conclave dos cardeais escolheu João Paulo II, o Card. Stefan Wyszyński, Primaz da Polónia, disse-me: "A missão do novo Papa será a de introduzir a Igreja no Terceiro Milénio"». E acrescenta: «Desejo mais uma vez agradecer ao Espírito Santo pelo grande dom do Concílio Vaticano II, do qual me sinto devedor, juntamente com toda a Igreja e, sobretudo, o episcopado. Estou convencido de que será concedido ainda por muito tempo, às sucessivas gerações, haurir das riquezas que este Concílio do século XX nos prodigalizou. Como Bispo que participou no evento conciliar, desde o primeiro ao último dia, desejo confiar este grande património a todos aqueles que são, e serão, chamados a realizá-lo. Pela minha parte, agradeço ao Pastor eterno,que me permitiu servir esta grandíssima causa ao longo de todos os anos do meu pontificado». E qual é esta causa? É a mesma que João Paulo II enunciou na sua primeira Missa solene, na Praça de São Pedro, com estas palavras memoráveis: «Não tenhais medo! Abri, melhor, escancarai as portas a Cristo!». Aquilo que o Papa recém-eleito pedia a todos, começou ele mesmo, a fazê-lo: abriu a Cristo a sociedade, a cultura, os sistemas políticos e económicos, invertendo, com a força de um gigante – força que lhe vinha de Deus –, uma tendência que parecia irreversível. Com o seu testemunho de fé, de amor e de coragem apostólica, acompanhado por uma grande sensibilidade humana, este filho exemplar da Nação Polaca ajudou os cristãos de todo o mundo a não ter medo de se dizerem cristãos, de pertencerem à Igreja, de falarem do Evangelho. Numa palavra, ajudou-nos a não ter medo da verdade, porque a verdade é garantia de liberdade. Sintetizando ainda mais: deu-nos novamente a força de crer em Cristo, porque Cristo é o Redentor do homem – Redemptor hominis: foi este o tema da sua primeira Encíclica e o fio condutor de todas as outras.
Karol Wojtyła subiu ao sólio de Pedro trazendo consigo a sua reflexão profunda sobre a confrontação entre o marxismo e o cristianismo, centrada no homem. A sua mensagem foi esta: o homem é o caminho da Igreja, e Cristo é o caminho do homem. Com esta mensagem, que é a grande herança do Concílio Vaticano II e do seu «timoneiro» – o Servo de Deus Papa Paulo VI –, João Paulo II foi o guia do Povo de Deus ao cruzar o limiar do Terceiro Milénio, que ele pôde, justamente graças a Cristo, chamar «limiar da esperança». Na verdade, através do longo caminho de preparação para o Grande Jubileu, ele conferiu ao cristianismo uma renovada orientação para o futuro, o futuro de Deus, que é transcendente relativamente à história, mas incide na história. Aquela carga de esperança que de certo modo fora cedida ao marxismo e à ideologia do progresso, João Paulo II legitimamente reivindicou-a para o cristianismo, restituindo-lhe a fisionomia autêntica da esperança, que se deve viver na história com um espírito de «advento», numa existência pessoal e comunitária orientada para Cristo, plenitude do homem e realização das suas expectativas de justiça e de paz.
Por fim, quero agradecer a Deus também a experiência de colaboração pessoal que me concedeu ter longamente com o Beato Papa João Paulo II. Se antes já tinha tido possibilidades de o conhecer e estimar, desde 1982, quando me chamou a Roma como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, pude durante 23 anos permanecer junto dele crescendo sempre mais a minha veneração pela sua pessoa. O meu serviço foi sustentado pela sua profundidade espiritual, pela riqueza das suas intuições. Sempre me impressionou e edificou o exemplo da sua oração: entranhava-se no encontro com Deus, inclusive no meio das mais variadas incumbências do seu ministério. E, depois, impressionou-me o seu testemunho no sofrimento: pouco a pouco o Senhor foi-o despojando de tudo, mas permaneceu sempre uma «rocha», como Cristo o quis. A sua humildade profunda, enraizada na união íntima com Cristo, permitiu-lhe continuar a guiar a Igreja e a dar ao mundo uma mensagem ainda mais eloquente, justamente no período em que as forças físicas definhavam. Assim, realizou de maneira extraordinária a vocação de todo o sacerdote e bispo: tornar-se um só com aquele Jesus que diariamente recebe e oferece na Eucaristia.
Feliz és tu, amado Papa João Paulo II, porque acreditaste! Continua do Céu – nós te pedimos – a sustentar a fé do Povo de Deus. Amen.